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#695 Perguntas sobre a trindade por um simpatizante

March 23, 2021
Q

Olá, Dr. Craig.

Desculpe se esta pergunta é extensa. Fui ateu pela maior parte dos últimos 15 anos, mas, recentemente, tenho sentido um chamado para voltar para o cristianismo. Estou relendo o Novo Testamento em diversas traduções e com comentário, para ver exatamente aquilo em que creio (ou deveria crer).

Estou confuso com o conceito da trindade, que um Deus monoteísta pudesse existir em três pessoas separadas. Não tenho nenhuma dificuldade em aceitar a divindade de Cristo, mas por que trinitarismo, e não modalismo ou algo diferente? A partir da minha leitura e entendimento do texto, não é ensinado com clareza no Novo Testamento. No máximo, pode ser inferido. O versículo mais claro para amparar a trindade (em 1 João) provavelmente não é autêntico. Versículos podem ser mostrados para amparar a trindade, mas também podem ser mostrados para amparar posições não-trinitárias, e não consigo encontrar nenhuma resposta satisfatória de nenhum lado nesta discussão. Quando começo a fazer perguntas como: “Como Cristo pode ser eterno e gerado?”, costumo achar respostas do tipo: “É um mistério, não podemos entender, mas você precisar crer mesmo assim!”.

Qual é a importância desta doutrina? A crença nela tem impacto na salvação? Por que Deus esperaria que crêssemos em doutrina tão confusa que não está explicitamente definida pela Bíblia?

John

Estados Unidos

Dr. Craig responde


A

Sempre gosto de ter notícia de quem está sinceramente em busca da fé cristã, John! Lendo a sua pergunta, parece-me que não está confuso com o conceito ou a doutrina da trindade em si. Antes, as suas perguntas parecem, fundamentalmente, dizer respeito à base bíblica dela. Por que não adotar o modalismo ou alguma outra visão, em vez da teologia trinitária? Parece-me — como também aos Pais da Igreja que lutaram com a mesma questão — que a doutrina da trindade proporciona um modelo melhor para entender os textos do Novo Testamento do que o fazem modelos alternativos.

Por isso, é um tanto equivocado dizer que a doutrina da trindade “não é ensinad[a] com clareza no Novo Testamento”. É correto que a doutrina da trindade, assim como os seus concorrentes, é um construto teológico com o fim de dar sentido aos dados do Novo Testamento. Os dados, porém, deixam bem claras duas coisas, penso eu, que qualquer modelo teológico deva explicar: (1) Só existe um Deus e (2) Existem três pessoas que são divinas. Entenda, por favor, que o que está em jogo aqui não é encontrar um único texto para provar a trindade. Antes, a questão envolverá todo o material pertinente no Novo Testamento e como melhor explicá-lo.

Então, por exemplo, você vai precisar olhar os escritos de João e se perguntar: “Será que João ensinou que Jesus é divino?”. Parece-me indiscutível que ele o tenha feito (João 1.3; 1.14,20,28; 1 João 5.20). Não consigo ver como essas passagens possam ser lidas de qualquer outro modo. Em seguida, pergunte-se: “Será que João pensou que Jesus era a mesma pessoa que o Pai?”. Mais uma vez, parece-me simplesmente inegável que João não pensava que o Pai fosse a mesma pessoa que Jesus (João 1.14,18; 14—15). Assim, temos aí a formação de um modelo “binitário” de Deus. Acrescentar uma pessoa a mais para fazê-lo trinitário não vai suscitar nenhum problema conceitual adicional. Faça, então, perguntas semelhantes sobre a visão de João sobre o Espírito Santo. O Espírito Santo é divino? Será que ele é uma pessoa distinta do Pai e de Jesus? Mais uma vez, a resposta às duas perguntas parece ser: “Sim”. O modalismo, segundo o qual os três são, na verdade, a mesma e única pessoa, simplesmente não explica bem os dados.

Daí, atente para as cartas de Paulo e faça as mesmas perguntas. Acho que perceberá que Paulo também era claramente um monoteísta que pensava que Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas diferentes e, ainda assim, cada um é divino. O mesmo com o autor de Hebreus.

Observe que não se trata de “mostrar versículos para amparar a trindade”. Antes, como qualquer exegeta de uma peça literária, estamos tentando entender o que determinado autor acreditava a respeito de certo assunto. Parece-me que esses autores do Novo Testamento criam, sim, que, embora exista um só Deus, há três pessoas divinas distintas, o que vem justamente a ser a doutrina da trindade em forma embrionária.

Quando você relata que há quem responda às suas perguntas com comentários como: “É um mistério, não podemos entender, mas você precisar crer mesmo assim!”, receio que você esteja falando apenas com as pessoas erradas. À sua pergunta: “Como Cristo pode ser eterno e gerado?”, não é difícil responder. O motivo por que os Pais da Igreja falaram de Cristo como gerado, e não criado, é que ele compartilha da mesma natureza de Deus Pai. Uma cadeira não tem a mesma natureza do carpinteiro, mas gatinhos têm a mesma natureza dos gatos que os geraram. Gerar implica igualdade de natureza. No entanto, ser gerado não acarreta um começo da existência, mas uma relação de dependência ontológica. Os Pais da Igreja gostavam de dar a analogia do raio de sol que procede do sol. Se o sol brilha desde a eternidade passada, o raio de sol é coeterno com o sol. Há aí, obviamente, uma relação de dependência assimétrica: o raio de sol depende e deriva do sol; o sol não depende nem deriva do raio de sol. Naturalmente, trata-se apenas de uma analogia; porém, o ponto saliente da analogia é que derivação de outrem não é inerentemente uma relação temporal.

Qual é a importância da doutrina?”. Devo dizer que é extremamente importante afirmar os dois pontos que mencionei acima, uma vez que nos dizem como é Deus e nos ajudam a ver os papéis de cada pessoa na economia divina de salvação. Por exemplo, não é o Pai que assume a natureza humana e morre na cruz, mas o Filho. É o Espírito, e não o Filho, quem nos regenera, habita em nós, enche-nos e nos dá seus dons.

A crença nela tem impacto na salvação?”. Às vezes. Os judeus do Antigo Testamento foram salvos sem crer nesta doutrina, que ainda não fora revelada. Igualmente, em certas circunstâncias históricas hoje, pode-se imaginar que não se poderia esperar que algumas pessoas cressem numa doutrina de que jamais ouviram falar ou não entenderam. Por outro lado, quem deliberadamente nega os pontos centrais da doutrina da trindade está num lugar perigoso. Isto porque a pessoa pode identificar Deus com o Pai somente e, portanto, negar a divindade de Jesus, o que é incompatível com a fé salvadora. Mais difícil é o que dizer sobre a pessoa desorientada que diz ser Jesus o Deus Pai encarnado, uma vez que essa pessoa não nega a divindade de Cristo. Ainda bem que não tenho de julgar ninguém!

Por que Deus esperaria que crêssemos em doutrina tão confusa que não está explicitamente definida pela Bíblia?”. Bem, porque ela é verdadeira! Ela nos diz quem Deus é, e é bom sabermos disso. Os pontos essenciais da doutrina são ensinados explícita e claramente na Bíblia, a saber: (1) Existe somente um Deus e (2) Existem três pessoas que são divinas. Todas as questões formais sobre substâncias, naturezas, geração e assim por diante, você pode deixar com os filósofos.

- William Lane Craig