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#89 O Neo-Molinismo de Gregory Boyd

August 03, 2014
Q

Primeiro gostaria de lhe agradecer tudo que fez e continua fazendo pelo Senhor. Sou muito grato por sites como o seu, que entram nas perguntas difíceis a respeito ao Cristianismo. Não consigo começar a lhe expressar quão incrível e útil é ter a sabedoria de alguém como você disponível a qualquer momento.

Tenho me correspondido com outro cristão sobre a visão aberta vs. a visão clássica da onisciência de Deus. Atualmente eu defendo a visão aberta como expressa por Greg Boyd. Realmente me surpreende que você não o mencione em suas discussões, pois o vejo como uma das melhores mentes cristãs da atualidade. Ele também é um dos maiores proponentes da teologia aberta. Como tenho muitas perguntas sobre esse assunto, gostaria de ouvir sua contribuição sobre um assunto específico do que Boyd chama de Neo-Molinismo. Ele introduz a existência de contrafactuais “poderia” assim como contrafactuais “seria”. Em seu site e em seus livros ele diz,

Em um quadrado de oposições contrafactuais, a antítese lógica da afirmação, “agente x faria y na situação z” não é a afirmação, “agente x não faria y na situação z.” Esta é uma posição contrária, não uma proposição contraditória. A antítese lógica de “agente x faria y na situação z” é, na verdade, a afirmação “é possível que o agente x não faça y na situação z.” Esta afirmação final também tem um valor de verdade eterno, e assim deve ser conhecida por um ser onisciente.

O ponto é que contrafactuais “seria” não esgotam a categoria de contrafactuais: existem também as contrafactuais “poderia”. Proposições sobre ambas as categorias de contrafactuais tem um eterno valor de verdade que deve ser conhecida por Deus. Assim eu não vejo razão para restringir o conhecimento médio de Deus para conhecimento de contrafactuais “seria”, ou, o que acaba sendo a mesma coisa, a conclusão de que todas as contrafactuais “poderia” são falsas.

Existe muito mais que poderia ser dito em defesa da visão aberta da onisciência de Deus, e o que Boyd tem a dizer sobre o assunto, mas eu penso que muito pode ser resumido com a afirmação acima.

Você discorda das afirmações dele sobre contrafactuais “poderia”?

Estou muito interessado em seu ponto de vista nisso, pois eu penso que este é um dos assuntos mais interessantes e importantes do Cristianismo hoje.

Ephraim

United States

Dr. Craig responde


A

Na realidade eu interagi com as visões de Greg Boyd em Divine Fore knowledge: Four Views [Presciência Divina: Quatro Visões], ed. James Beilbyand Paul Eddy (Downer's Grove, Ill.: Inter-VarsityPress, 2001). De fato, na convenção anual da Sociedade Evangélica de Teologia, mês passado, em Providence, Rhode Island, eu estava no painel com Greg direcionado a visões competindo com providência divina, ele defendendo uma abordagem de teísmo aberto e, eu, defendendo uma perspectiva Molinista. (Acredito que uma gravação dessa sessão está disponível no site da ETS.) As críticas da hermenêutica bíblica dele, feitas pelo público, foram, eu acredito, simplesmente devastadoras. Também foi evidente para mim que ele não tinha uma compreensão firme da alternativa Molinista, pressuposto do conhecimento médio de Deus.

Ao mesmo tempo que eu considero o Greg um dos mais importantes popularizadores do teísmo aberto hoje, acredito que o trabalho dele nessa área exibe algumas más compreensões que contaminam suas críticas da presciência divina e conhecimento médio. David Hunt, que também participou do livro “Quatro Visões”, mencionado acima, e não é um Molinista, concorda comigo, e está atualmente co-escrevendo uma resposta para um recente artigo sobre teísmo aberto que Boyd escreveu juntamente com Alan Rhoda e Thomas Belt, que, acreditamos, ser muito confuso.

Na reunião da ETS Boyd explicou sua alternativa neo-Molinista, que, disse ele, não tem gerado muitos seguidores. Sua defesa é que, apesar de Deus não possuir conhecimento médio de contrafactuais “seria” da liberdade das criaturas, tal como “Se Jones estivesse em circunstâncias C, ele livremente faria ação A”, Deus tem conhecimento médio das contrafactuais “poderia” da liberdade das criaturas, como, “Se Jones estivesse em circunstâncias C, ele poderia livremente fazer a ação A”. Portanto, Deus sabia, logicamente, antes do Seu decreto de criar o mundo, o que qualquer pessoa que Ele criasse poderia ou não fazer em qualquer tipo de circunstâncias em que Deus os colocasse. Ao explorar Seu conhecimento médio de tais contrafactuais “poderia”, Deus é capaz de planejar como Ele mesmo responderia a qualquer escolha que qualquer pessoa poderia fazer em qualquer conjunto de circunstâncias. Assim, apesar de Deus tomar riscos em criar um mundo com criaturas livres, em que Ele não sabe, nem como as criaturas escolheriam, caso Ele os criasse, nem como eles escolherão, no mundo real, pois Ele já decidiu como Ele iria responder a qualquer ação que eles poderiam tomar. Além do mais, Ele é tão inteligente que sabe que, como quer que as criaturas escolham, Ele irá responder a fim de assegurar a realização de seus propósitos.

Tal manobra da parte de Boyd parece, em primeira instância, vergonha de representar um passo significativo na direção do Molinismo, já que há uma diferença significativa e intuitiva entre o que uma pessoa pode fazer em um conjunto de circunstâncias e o que ela poderia fazer. Por exemplo, quando Adolf Hitler falou ao agrupamento de Nazistas em Nuremberg, em 1937, ele poderia ter começado um discurso de adoração a Winston Churchill – mas, sem dúvida, isso não é uma coisa que ele pode ter feito. Portanto, existe uma importante diferença entre o que uma pessoa pode fazer e o que ela poderia fazer, dado um conjunto de circunstâncias.

Se Boyd quer capturar este sentido intuitivo de “poderia,” então, ao admitir a verdade de contrafactuais “poderia” logicamente anteriores ao decreto divino, Boyd parece ter sutilmente abandonado a objeção mais comum e forte para a doutrina do conhecimento médio, isto é, objeções baseadas na falta de fundamentação para tais proposições. Na visão neo-Molinista de Boyd parecem ter verdades sobre o que pessoas poderiam ou não poderiam fazer sob um conjunto de circunstâncias, verdades que parecem ir além de meras possibilidades, que são conhecidas por Deus, logicamente, antes de Seu decreto de qual mundo seria o real.

Mas se contrafactuais “poderia” podem ser logicamente verdade antes do decreto de Deus, então por que as contrafactuais “seria” não podem também? Boyd parece não apreciar que na visão Molinista contrafactuais “seria” implicam logicamente contrafactuais “poderia”, para que ambas sejam verdade e conhecidas por Deus. Boyd está errado de forma fundamental se ele imagina que o Molinismo visa “restringir o conhecimento médio de Deus para contrafactuais 'seria', ou, o que parece ser a mesma coisa, conclui que todas as contrafactuais 'poderia' são falsas.” O Molinista mantém que ambos os tipos de contrafactuais são verdadeiros e conhecidos por Deus através de Seu conhecimento médio.

É o Boyd, então, que está tentando restringir o conhecimento de Deus ao limitá-Lo para contrafactuais “poderia”. Mas, tendo abandonado as objeções típicas para o conhecimento médio, qual justificativa Boyd tem para esta restrição? Se ele diz que contrafactuais “seria” são incompatíveis com a liberdade da criatura, então ele esqueceu a diferença entre o que alguém pode fazer e o que alguém poderia fazer em um conjunto de circunstâncias. Liberdade requer somente que, em um dado conjunto de circunstâncias, alguém seja capaz de evitar de fazer o que faria; não se requer que esta pessoa possa não fazer o que faria.

É importante entender que na semântica tradicional para contrafactuais condicionais, contrafactuais “poderia” são simplesmente definidas - contrário ao seu uso em linguagem normal - como as negações de não-contrafactuais “seria”. É isso que Boyd reconhece quando menciona a passagem que você cita, Ephraim, que “Em um quadrado de oposições contrafactuais, a antítese lógica da afirmação, “agente x faria y na situação z” não é a afirmação, “agente x não faria y na situação z.”...[mas] “Agente x pode não fazer y na situação z.” Boyd parece confundir a linguagem comum de “poderia”, que é cheia de conotações de liberdade, com seu significado técnico em semântica contrafactual, que não traz qualquer ideia de liberdade das escolhas feitas. (Na verdade esta combinação do que uma pessoa pode fazer com o que uma pessoa poderia fazer é uma confusão que permeia todos os escritos de Boyd.) Se Boyd está disposto a aceitar as verdadeiras contrafactuais “poderia”, então eu não vejo razão que reste para negar a verdade das contrafactuais “seria” também. Mas isso resulta em um completo Molinismo.

Infelizmente, ao negar a verdade de qualquer contrafactual “seria”, a visão de Boyd parece arruinar a distinção entre “poderia” e “pode.” Enquanto contrafactuais “poderia” são implícitas por verdadeiras contrafactuais “seria,” podemos conter a distinção entre alguém poderia fazer e o que ele faria sob quaisquer circunstâncias. É verdade que Hitler poderia não ter dado um discurso elogiando Churchill, porque ele não faria isso; mas, ainda assim, ele poderia ter feito, porque existem mundos possíveis (menos parecidos com o mundo real do que aqueles em que ele não faria tal coisa) em que ele faz isso. Mas se contrafactuais “seria” são uniformemente falsas, então é incorreto que ele não faria tal coisa e, portanto, por definição, é verdade que ele poderia fazer tal coisa. Não importa quão estranho seja a ação que escolhermos - como Hitler dando um discurso enquanto de cabeça para baixo -, haverá, na falta de qualquer contrafactual verdadeira que mostre que ele não faria tal ação, mundos entre aqueles mais parecidos com o mundo real em que ele toma tal ação, então é verdade que ele poderia fazer tal coisa. Assim, a aparente aproximação de Boyd com o Molinismo torna-se mera simulação. Já que contrafactuais “poderia” entram em colapso com contrafactuais sobre o que alguém poderia livremente fazer, Deus sabe nada mais que meras possibilidades antes de Seu decreto criativo - exatamente o que teísmo aberto tradicional defende!

Boyd, então, parece encarar um dilema fundamental: se contrafactuais são distintas de afirmações sobre o que alguém poderia fazer em qualquer conjunto de circunstâncias, então não permanece qualquer razão para negar a verdade das contrafactuais “poderia” também; mas se elas não são distintas, então Boyd supõe que neo-Molinismo é apenas uma variação trivial da visão teísta aberta de sempre.

Na visão Molinista, como na visão de Boyd, Deus planeja como Ele reagiria a qualquer decisões que suas criaturas poderiam livremente fazer. Pois quando Ele decreta qual mundo será real, Ele simultaneamente decreta a verdade das contrafactuais de liberdade divina, isto é, contrafactuais a respeito de como Deus mesmo agiria livremente em qualquer circunstância envolvendo Suas criaturas. Ao decretar um mundo (sem vírgulas) Deus decreta não somente como Ele irá agir em resposta às criaturas, mas, também, como Ele agiria se as criaturas escolhessem de modo diferente. Assim, como o Deus do neo-Molinismo, Ele está preparado para qualquer contingência, mas Ele é melhor do que o Deus do neo-Molinismo, no sentido de que Ele sabe, não somente como as criaturas poderiam escolher em qualquer conjunto de circunstâncias, mas também como eles escolheriam sob quaisquer circunstâncias.

De qualquer forma, conhecimento de meras contrafactuais “poderia” é insuficiente para dar a Deus o tipo específico de controle providencial descrito na Bíblia. Considere as seguintes passagens bíblicas:

“...a este, que foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, vós matastes, crucificando-o pelas mãos de iníquos;” (Atos 2.23)

“Porque verdadeiramente se ajuntaram, nesta cidade, contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, não só Herodes, mas também Pôncio Pilatos com os gentios e os povos de Israel; para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho predeterminaram que se fizesse.”(Atos 4.27-28).

Aqui nós temos afirmações impressionantes de soberania divina sobre os negócios dos homens. Sobre a conspiração para crucificar Jesus, envolvendo não somente os romanos e o judeus em Jerusalém naquela época, mas, mais particularmente, Pilatos e Herodes, que julgaram Jesus, é dito ter acontecido pelo plano de Deus, baseada em Sua presciência e predestinação. Como nós devemos entender tal providência de tamanho alcance?

Se nós pegarmos a palavra bíblica “presciência” para envolver conhecimento médio, então nós poderemos entender perfeitamente do controle providencial de Deus sobre o mundo de agentes livres. Pois, através de seu conhecimento médio, Deus sabia exatamente que pessoas, se membros do sinédrio iriam votar livremente para a condenação de Jesus; quais pessoas, se em Jerusalém, livremente exigiriam a morte de Jesus, preferindo a libertação de Barrabás; o que Herodes, se rei, faria livremente em reação a Jesus e ao pedido de Pilatos de julgá-lo; e o que Pilatos mesmo, se tendo a prefeitura sobre a Palestina em 30 A.D., faria livremente, sob a pressão dos líderes judaicos e a multidão. Sabendo todas as possíveis circunstâncias, pessoas, e permutações dessas, Deus decretou criar apenas aquelas circunstâncias e apenas aquelas pessoas que livremente fariam o que Deus queria que acontecesse. Assim, todo o cenário, como Lucas insiste, desdobrou-se de acordo com o plano de Deus. Isto é verdadeiramente incrível. Quando alguém reflete que a existência das várias circunstâncias e pessoas envolvidas era, em si mesmo, o resultado de miríades de escolhas livres anteriores da parte de desses e outros agentes, e esses, por sua vez, resultado de contingências posteriores, e assim por diante, então nós vemos que somente uma mente onisciente poderia providencialmente direcionar um mundo de criaturas líderes na direção de seu fim soberanamente estabelecido. Na verdade, Paulo reflete que “nenhum dos príncipes deste mundo compreendeu; porque se a tivessem compreendido, não teriam crucificado o Senhor da glória. (I Cor. 2:8). Uma vez que compreendemos a doutrina do conhecimento médio divino então rendemos adoração e louvor a Deus por tal soberania de tirar o fôlego.

Agora, qual conta da providência divina pode ser dada na ausência de conhecimento médio? Advogados da divindade aberta livremente admitem que sem conhecimento médio uma doutrina forte de providência divina torna-se impossível. Mas tal ponto de vista não pode fazer qualquer sentido em passagens bíblicas como aqueles mencionados acima. Considere a história da morte de Saul, em I Samuel 31:1-6 e I Crônicas 10:8-12. Ambos os autores descrevem a morte de Saul por sua própria mão, em vez de se render aos Filisteus. Mas, então, o autor de Crônicas acrescenta o comentário impressionante: “pelo que ele o matou, e transferiu o reino a Davi, filho de Jessé.” (I Cron. 10:14b). Agora, como Boyd fará sentido dessa afirmação? O suicídio de Saul foi considerado um ato pecaminoso e vergonhoso e, portanto, não pode ter sido determinado causalmente por Deus. Porém, seu suicídio, diz o autor de Crônicas, foi feito de Deus. Ou pense na afirmação de José aos seus irmãos no Egito: “Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos aborreçais por me haverdes vendido para cá; porque para preservar vida é que Deus me enviou adiante de vós....Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; Deus, porém, o intentou para o bem, para fazer o que se vê neste dia, isto é, conservar muita gente com vida.” (Gn. 45:5; 50:20) Novamente (sem vírgula) a maldade e mentiras dos irmãos não podem ter sido causados por Deus; porém, Deus direcionou de forma soberana os eventos na direção de Seu fim previsto de salvar Israel da fome. Teologia aberta sai perdendo para explicar esta união da liberdade humana e soberania divina. Ironicamente, Boyd é forçado a reverter para o determinismo Calvinista para dar conta da providência de Deus, e, assim, acaba destruindo a liberdade humana. Por contraste, o Molinismo provê um relato claro da soberania divina e liberdade humana nos termos do conhecimento médio de Deus das contrafactuais da liberdade das criaturas.

Boyd gosta de comparar Deus a um Grande Mestre em xadrez, que é capaz, com base em seu conhecimento de sua própria proeza e da fraqueza de seu oponente, de prever exatamente quando e com qual jogada ele irá dar o cheque mate em seu oponente. A analogia é cativante; infelizmente, a visão de Boyd de Deus não é de um jogador de xadrez brilhante que é capaz de saber se Seus planos terão sucesso. Pois Ele falhou em alcançar a salvação universal que Ele queria, e arrependeu-se de ter criado o homem. Essas não são as jogadas de um Grande Mestre! Então, como Ele poderia saber antes da fundação do mundo, por exemplo, que o Seu plano para Cristo ser crucificado através da livre agência de Pilatos e Herodes seria concretizado? Na reunião da ETS a resposta de Boyd era que o plano de Deus não incluía Herodes, Pilatos, ou até mesmo a crucifixão, mas meramente o fato que Cristo iria morrer pelos nosso pecados. Por que, na falta de argumentos filosóficos convincentes, ensinamentos bíblicos são comprometidos desse jeito?

Em contraste, o Molinismo faz perfeito sentido do plano providencial de Deus em todos os detalhes. Ele é como o Grande Mestre que está jogando contra um oponente que ele conhece tão bem, que ele sabe cada uma das jogadas que seu oponente faria em resposta aos seus próprios movimentos. Tal Grande Mestre não poderia tornar real simplesmente qualquer jogo possível, dada a liberdade de seu oponente, mas ele poderia tornar real qualquer jogo possível dada as contrafactuais de liberdade que são verdade. Assim, o Molinista pode explicar a falta da salvação universal, em termos das contrafactuais erradas serem verdade. Pode ser que um mundo tendo mais salvos, mas menos condenados do que o mundo real não era praticável para Deus. Mas dado Seu conhecimento das contrafactuais verdadeiras da liberdade das criaturas, Deus está certo que Seus planos para construir o Seu Reino serão alcançados no final das contas.

Em cima de tudo isso, estão, também, bons argumentos para pensar que Molinismo é verdade, uma discussão que pode ser encontrada em meu pequeno livro What Does God Know? [O que Deus Sabe?](Atlanta: RZIM, 2002).

- William Lane Craig