#85 Quatro Perguntas para Fazer seu Cérebro Doer
August 03, 2014Querido Dr. Craig,
Posso começar lhe agradecendo muito por seu ministério, e por disponibilizar tanto conteúdo tão livremente. Tenho aprendido muito e crescido ao escutar os podcasts do Defenders [Defensores] e do Reasonable Faith [Fé Razoável], e também pelos blogs no seu site.
Isso é realmente algo rápido só para fazer-lhe ciente de um artigo que você pode não ter visto no site da BBC News, chamado “Quatro perguntas filosóficas para fazer seu cérebro doer” [http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/magazine/7739493.stm]. (Moro em Londres, então esse é meu site de notícias padrão).
As quatro perguntas/propostas supostamente difíceis ou sem resposta são:
1. NÓS DEVERÍAMOS MATAR PESSOAS PELOS SEUS ÓRGÃOS?
2. VOCÊ NÃO É A PESSOA QUE COMEÇOU A LER ESTE ARTIGO.
3. ISTO É REALMENTE UMA TELA DE COMPUTADOR NA SUA FRENTE?
4. VOCÊ NÃO ESCOLHEU LER ESTE ARTIGO LIVREMENTE E DE FORMA RESPONSÁVEL.
Agora, eu não sou um filósofo, mas é óbvio para mim que alguns destes demonstram-se ser um desafio maior para o naturalista do que para um Cristão.
1. Não mate!
2. 'Você' é mais do que uma coleção de células em seu corpo, e o eu imaterial não mudou de substância ou essência desde que começou a ler o artigo. O cérebro é de fato 'uma máquina que um fantasma pode operar', e este fantasma é meu espírito.
3. Posso aceitar que este é um ponto interessante, que eu suponho é a razão porque Hebreus 11:6 diz 'Ora, sem fé é impossível agradar a Deus; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam.' Então nós TODOS operamos através de crenças e fé, não é? Naturalistas odiariam conceder isso...
4. Por que não dizer simplesmente Deus ao invés de Fred?! De qualquer forma, nós entendemos que Deus nos criou para escolher livremente amar e servi-Lo, que é a razão pela qual a primeira história na Bíblia é sobre uma casal que escolheu ir contra Deus. Incidentalmente, eu me pergunto o que esse filósofo em particular teria a dizer sobre a causa do Big Bang?
De qualquer forma, apenas pensei que você poderia estar interessado em saber o que está acontecendo na imprensa popular da Inglaterra. Estou sendo simplista demais em minha reação?
Para mim, fico em regozijo que vez após outra, a cosmovisão Cristã dá uma compreensão do mundo que nenhuma outra cosmovisão oferece. Louvado seja Deus!
Em Cristo,
Phil
United States
Dr. Craig responde
A
Procurei no Google o artigo após ler sua pergunta, Phil, e apesar do ponto principal de David Bain em compartilhar esses problemas ser bom - isto é, que se você rejeita uma conclusão, então você precisa diagnosticar onde está o erro do argumento - , ainda assim preciso concordar com você que os enigmas que ele destrava, de fato, são mais difíceis para o naturalista do que para o teísta cristão. Se o teísmo cristão é verdade, então em cada caso o escape é muito mais evidente do que na cosmovisão naturalista.
Pegue a primeira pergunta do que é moral fazer. Apesar de o naturalista poder com sucesso apontar as des-analogias entre matar uma pessoa saudável para pegar seus órgãos e os outros casos que Bain menciona como pretensas justificativas, o que é mais difícil para o naturalista fazer é justificar as presunções que seres humanos tem valor moral intrínseco em primeiro lugar e que nós temos qualquer obrigações morais uns para com os outros. A foto de Sartre acompanhando o artigo nos lembra que na visão ateísta de Sartre não existem valores pré-estabelecidos: Tudo com o que somos confrontados é o fato nu e sem valor da existência. Cada um de nós deve portanto escolher seus próprios valores. É difícil ver porque, dado o naturalismo, Sartre estava enganado. Então o que há de errado em matar pessoas saudáveis para retirar seus órgãos? É claro, Sartre não podia viver com as implicações de sua própria negação da objetividade moral. Em seu artigo “Existencialismo é Humanismo,” escrito após o holocausto, Sartre condena anti-Semitismo, declarando que uma doutrina que leva a exterminação não é meramente uma opinião ou gosto pessoal, e sofre em vão para fugir da contradição entre sua negação de valores divinos pré-estabelecidos e seu desejo urgente de afirmar o valor de pessoas humanas. Esse desastre só mostra como o ateísmo não consegue ser vivido.
Quanto a segunda pergunta de identidade pessoal com o passar do tempo, esse problema é bem maior para o naturalista que nega a realidade da alma ou mente. As perguntas de Bain existem apenas se assumirmos que uma pessoa humana é um objeto material como o corpo ou cérebro de um humanoide. Mas se existe um ser substancial que é o possuidor dos estados mentais que Bain menciona, então nenhum de seus enigmas se aplica. É claro, novos quebra-cabeças podem ser oferecidos de como a alma pode sofrer mudanças intrínsecas em suas propriedades contingentes com o passar do tempo. É interessante notar que a pergunta colocada aqui torna-se realmente contundente quando você coloca teorias do tempo. Pois se você é defensor de tempo aflexivo (o chamado B-Theory) e nega a realidade objetiva de tornar-se temporal, então você parece estar comprometido a conclusão que você não é a mesma pessoa que começou a ler esse artigo, pois aquele indivíduo é somente um seguimento do “verme” de um espaço-tempo de quatro dimensões, já que eles tem propriedades diferentes. Portanto, teóricos de tempo aflexivo encaram problemas reais sobre a identidade durante o tempo, problemas que são evitados se dissermos como os teóricos-A que as únicas coisas temporais que existem são aqueles que existem no presente. (Veja meu livro Time and Eternity [Tempo e Eternidade] para mais nesse assunto.)
A terceira pergunta sobre a veracidade dos nossos sentidos tem sido empregado para a vantagem do teísmo por Alvin Plantinga em seu trabalho sobre crenças propriamente básicas. Com perigo de ceticismo, crenças como a crença na realidade de objetos físicos devem ser tomados como propriamente básicas, fundamentados em experiência mas não inferidos por crenças mais fundamentais. Mas então Plantinga quer saber porque crença em Deus não pode da mesma forma ser propriamente básica. Toda a epistemologia da religião de Plantinga explicada em sua trilogia em justificativa vem da tentativa de responder o quebra-cabeça de Bain. Além do mais, o argumento evolutivo contra naturalismo de Plantinga mostra que naturalismo é um sistema de crenças auto-destrutivo, pois dado o fato que nossas faculdades cognitivas são selecionados para sobrevivência, não para a verdade, nós não temos nenhuma confiança que, por exemplo, nossas crenças sobre a realidade de objetos físicos sejam verdade nem, por fim, que o próprio naturalismo seja verdade. Por contraste, em teísmo Deus projetou nossas faculdades cognitivas de tal maneira que, quando funcionando propriamente em um ambiente apropriado, elas levam a crenças verdadeiras sobre o mundo.
Finalmente, o quarto problema também trata seres humanos de forma naturalista como puramente objetos materiais. Suas escolhas são, de acordo, ou determinados de forma causal ou eventos aleatórios. Devo dizer, novamente, que é muito difícil ver porque esta conclusão estaria errada com uma antropologia materialista. É irônico, porém, que isso parece ser uma conclusão que um naturalista nunca poderia chegar racionalmente. Pois se todas nossas escolhas são determinadas de forma causal ou meramente aleatórias, então a escolha de acreditar em naturalismo pode não ser mais racional do que ter uma dor de dente ou para um galho crescer numa árvore. Portanto, determinismo parece não poder ser declarado racional. Em contraste, teístas acreditam na realidade de agentes imateriais, primeiramente o próprio Deus e, secundariamente, pessoas corporais e finitas. Assim, nada é previsível na base de leis científicas e condições iniciais. Bote que Deus não pode ser substituído por Fred na ilustração de Bain, já que a base da onisciência de Deus não é determinismo de causa, pelo menos se você é um teísta libertário.
Bain nem mesmo menciona teísmo como uma das perguntas mais importantes da filosofia. Mas seu propósito não é rever as perguntas mais importantes mas apresentar alguns argumentos plausíveis para conclusões que vão contra nossa intuição e perguntar o que deu errado. Teísmo é uma crença eminentemente sensível que não tem conclusões contra-intuitivos como a minha falta de identidade com a pessoa que começou a ler este artigo. Eu gosto do uso que Bain faz da citação de T. S. Eliot ao final de seu artigo. Nós precisamos apenas nos lembrar que teísmo pode verter muita luz dos quebra-cabeças do pensamento filosófico. Para citar outra figura literária britânica, C. S. Lewis, “Eu acredito no Cristianismo como eu acredito que o sol raiou: não somente porque eu o vejo, mas porque por ele eu vejo tudo o mais.”
- William Lane Craig