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#691 O problema de probabilidades decrescentes

March 23, 2021
Q

Olá, Dr. Craig.

Meu nome é Bram Rawlings e tenho 16 anos. Estou estudando as provas da ressurreição durante a quarentena. Richard Swinburne, no seu livro The Resurrection of God Incarnate [A ressurreição do Deus encarnado], mencionou que Alvin Plantinga criticou o argumento histórico por causa do problema de “probabilidades decrescentes”. Também topei com um artigo de Tim McGrew em resposta a Plantinga. É bastante assustador quando o gigante da filosofia cristã diz que o argumento histórico para a ressurreição de Jesus é fraco. O senhor tem uma posição sobre a objeção dele? Obrigado!

Bram

Estados Unidos

Dr. Craig responde


A

É assustador, Bram! Eu fiquei bem surpreso na primeira vez que ouvi Plantinga enunciar esta objeção à apologética histórica a favor do fato da ressurreição de Jesus.

Qual é o problema de probabilidades decrescentes? Plantinga explica que uma hipótese explanatória como “Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos” não é apenas uma única hipótese. Antes, pressupõe-se aí que Deus existe, que ele desejaria se revelar no mundo, que Jesus de Nazaré viveu e fez certas afirmações radicais acerca de si mesmo, e que Deus o ressuscitou dentre os mortos para vindicar tais afirmações radicais. Trata-se, realmente, de uma série de hipóteses.

Suponha, então, que queiramos calcular a probabilidade destas hipóteses, dados os indícios e as informações contextuais. Primeiramente, é preciso calcular a probabilidade de que Deus existe. Em seguida, seria preciso calcular não somente a probabilidade de que Deus existe, mas também a probabilidade de que Deus desejaria se revelar no mundo. Então, além disso, é preciso calcular a probabilidade de que Jesus viveu e fez certas afirmações radicais acerca de si mesmo. Por fim, é preciso descobrir, além destas hipóteses, a probabilidade de que Deus tenha ressuscitado Jesus dentre os mortos. A probabilidade de que todas estas hipóteses sejam verdadeiras é o produto de todas as probabilidades multiplicadas ao mesmo tempo. Plantinga diz que, mesmo que cada uma destas hipóteses tenha uma probabilidade muito alta — digamos, 90% —, não obstante, ao multiplicá-las ao mesmo tempo, a probabilidade de que sejam todas verdadeiras decresce. Isto porque 0,9 x 0,9 x 0,9 x 0,9 = 0,66. A probabilidade diminui cada vez mais até que, enfim, chegue-se a menos do que 50%. Pode acontecer que a probabilidade seja ínfima. Consequentemente, a hipótese da ressurreição de Jesus pode vir a não ser tão provável assim. Por isso, Plantinga pensa que não devemos basear a nossa crença na ressurreição de Jesus em provas históricas.

Pois bem, de cara, deve haver algo estranho nesta objeção. Mesmo que não se saiba onde está o problema, sabe-se que algo está errado com ele. Isto porque esta objeção não apenas solaparia a crença na ressurreição de Jesus, mas impossibilitaria crer em quase qualquer outra coisa na história que se baseasse numa série de eventos. Permita-me dar um exemplo da física. Na constelação de Cisne, há um objeto que astrônomos denominam de Cisne X-1. Com base nos indícios científicos, a maior parte dos astrônomos pensa que é muito provável que Cisne X-1 seja uma buraco negro. Pois bem, pense nesta hipótese a partir do problema de Plantinga de probabilidades decrescentes. A hipótese se baseia, em primeiro lugar, na probabilidade do chamado Princípio Copernicano, o princípio segundo o qual não ocupamos nenhum lugar especial no universo. O Princípio implica que as leis da natureza que vivenciamos são as mesmas leis da natureza que ocorrem e se mantêm na constelação de Cisne. Se as leis da natureza de Cisne fossem totalmente diferentes das nossas leis da natureza, não poderíamos tirar nenhum tipo de conclusão sobre Cisne X-1. Em segundo lugar, temos de considerar a probabilidade da Teoria Geral da Relatividade, uma vez que é com base nesta teoria gravitacional que se predizem buracos negros. Em terceiro lugar, há a probabilidade de que o eclipse em raios-x que observamos em Cisne X-1 se deva a um objeto associado que está em rotação ao redor de X-1 — outro objeto estelar neste sistema binário que nos ajuda a identificar X-1. Quarto, temos de levantar a hipótese, com base na órbita deste objeto associado, de que X-1 tem a massa de três a quatro vezes a do sol, aproximadamente. Quinto, com base nos raios-x cintilantes emitidos de X-1, temos de levantar a hipótese de que o tamanho de X-1 tem cerca de quatorze quilômetros e meio de diâmetro. Por último, temos de considerar a probabilidade de que não há nenhum outro objeto que pudesse causar estes fenômenos — por exemplo, uma estrela de nêutrons, que é um objeto estelar altamente compactado, mas não um buraco negro. Mesmo que cada uma destas hipóteses tivesse uma probabilidade de 90%, a probabilidade geral logo decresceria da mesmíssima forma que Plantinga imagina, de modo que nenhum cientista pudesse jamais concluir, razoavelmente, que Cisne X-1 seja, provavelmente, um buraco negro. Ainda assim, a maioria dos astrônomos pensa que se trata provavelmente de um buraco negro. Deve haver algo errado no argumento de Plantinga, ou tanto o raciocínio histórico quanto o científico estariam prejudicados.

Felizmente, como você mencionou, Timothy McGrew, filósofo cristão na Universidade do Michigan Ocidental, apontou qual é a falácia. A falácia é que Plantinga erroneamente mantém as provas constantes enquanto refina a hipótese. Mas isto está incorreto. Quando alguém diz que a probabilidade da existência de Deus é 90%, dadas as provas, está falando apenas das provas relevantes à existência de Deus. Nos argumentos teístas que defendo com base nas provas para a origem do universo, ou para o ajuste fino do universo para a vida inteligente, ou para os valores morais objetivos no mundo, ou para o argumento ontológico, nenhum destes argumentos apela para provas sobre Jesus ou os evangelhos. Apelam para alguns fatos gerais da experiência, como fatos morais ou fatos acerca da origem do universo e assim por diante. Quando descobrimos a probabilidade de que Deus existe e de que ele desejaria se revelar, aumentamos as provas iniciais com um pouco mais de provas. Igualmente, quando perguntamos qual é a probabilidade de que Deus exista e queira se revelar e Jesus tenha existido, acrescentamos ainda mais provas. Desde que provas continuem a aumentar, à medida que se consideram novas hipóteses, não importa que a hipótese está sendo cada vez mais refinada. O erro de Plantinga foi pensar que as provas se mantêm constantes, à medida que se consideram provas adicionais. Isto não está certo. À proporção que as provas se acumulam, a probabilidade da conjunção das hipóteses pode, na verdade, aumentar! Dadas as provas adicionais, a probabilidade de que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos poderia, na verdade, ser maior do que a probabilidade anterior de que Deus existe, pois acrescentamos todas as provas adicionais pertinentes às hipóteses posteriores. Portanto, a objeção de Plantinga baseada em probabilidades decrescentes está equivocada.

Para ser justo, Plantinga concordou com a análise de McGrew e insistiu que estava objetando simplesmente à maneira como Swinburne originalmente formulou o seu argumento, que, segundo pensou Plantinga, estava sujeito ao problema de probabilidades decrescentes. Em resposta, Swinburne disse que a sua intenção foi propor um argumento de probabilidade na mesma linha de McGrew.

- William Lane Craig