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#208 Sam Harris sobre os Valores e Deveres Morais Objetivos

October 28, 2014
Q

Caro William,

Eu tenho algumas perguntas no contexto de seu debate recente com Sam Harris.

1. Em relação à afirmação de que os valores morais objetivos podem ser fundamentados em Deus, eu tenho a impressão de que vocês dois estavam conversando sobre coisas diferentes. Você defendeu a visão de que é ontologicamente possível para Deus fundamentar valores morais objetivos, com a qual Sam pareceu concordar na sessão de perguntas e respostas. A objeção de Sam era que o Deus do cristianismo, baseado na Bíblia, não fundamenta os valores morais objetivos, simplesmente porque na Bíblia Ele comanda algumas coisas que são objetivamente erradas. No início do debate você deixou clara a irrelevância da pergunta da existência de Deus.Pergunto-me se não teria sido melhor também deixar claro no início que, se Deus é, de fato, como a Bíblia descreve ou como alguém entende a Bíblia, também é irrelevante.

2. Na sessão de perguntas e respostas um participante sugeriu o seguinte argumento:

a) Você não pode derivar um "deve" de um "é".

b) A existência de Deus é uma afirmação "é".

c) Portanto, você não pode derivar um "deve" da existência de Deus.

c) parece contradizer a sua tese de que valores morais objetivos são fundamentados em Deus. Sua resposta parecia ser que é justamente por isso que os mandamentos de Deus são necessários.

Agora eu sempre entendi que (a) é verdadeiro apenas no naturalismo, e que no teísmo alguém pode fundamentar (tanto no sentido epistêmico quanto ontológico) um "deve" em um "é": No teísmo toda a existência se fundamenta em Deus que, sendo uma pessoa, tem uma dimensão moral. Assim, fatos sobre a existência contingente (como ações ou estados de coisas) pode ter uma dimensão moral também.

Além disso, o teísmo oferece uma compreensão semântica natural da ética: Deus criou o universo com um propósito. As ações e estados das coisas no universo são moralmente bons na medida em que eles avançam ou se encaixam nesse propósito, e são eticamente ruins na medida em que entram em conflito com esse propósito.

Gostaria de saber sobre os seus pensamentos sobre estas coisas.

3. Eu acho que o seu argumento de "nocaute" ou argumento derrubador contra a identidade entre a paisagem moral e a paisagem do bem-estar pessoal é válido, e que é uma pena que Sam não tenha tentado responder. Ele não poderia ter respondido que, embora seja verdade que as duas paisagens não sejam idênticas, seu argumento básico sobrevive porque é razoável acreditar que as duas são, contudo, suficientemente parecidas? Na verdade, a fala de Jesus nos Evangelhos sobre o que nos dá lucro ou sobre a criação de tesouros eternos não implica a ideia de que a paisagem moral e do bem-estar pessoal estão tão pertos que se pode efetivamente utilizar o primeiro para saber mais sobre o segundo?

E em qualquer caso, você acha que há algo de errado em concordar com o projeto de Sam no nível epistêmico? Um cristão não poderia concordar que se pode saber sobre valores morais objetivos usando meios epistêmicos não-teístas, que Sam propõe, enquanto enfatizando que isso só é possível em uma realidade teísta?

Dianelos

Greece

Dr. Craig responde


A

É gratificante pensar que pessoas tão distantes como a Grécia estavam seguindo este debate na internet!

1. Sua primeira pergunta tem a ver com a minha primeira disputa, que se Deus existe, então nós temos um fundamento sólido para valores e deveres morais objetivos. Argumentei que no teísmo o próprio Deus, como o maior ser concebível, é o paradigma e o locus de valor moral e que Seu caráter essencial é expresso em direção a nós na forma de mandamentos divinos que constituem nossos deveres morais.

Acho que o problema não era que Harris e eu estávamos conversando sobre coisas diferentes, mas que Harris não foi capaz de levantar qualquer objeção substancial à minha Teoria do Comando Divino, e por isso voltou ao seu modo anti-cristão de costume, levantando-se contra doutrinas bíblicas, como o inferno e particularismo cristão. Que este é o caso, é evidente a partir do fato de que eu expliquei claramente em meu segundo discurso que estas questões são irrelevantes para o tema em questão, uma vez que Teóricos do Comando Divino incluem teístas que não são nem judeus nem cristãos, nem colocam qualquer dependência em infalibilidade bíblica, e, ainda assim, Harris persistia em meramente reiterar seus pontos. As críticas de Harris são carne vermelha para seus partidários na comunidade do pensamento livre, mas eles não tinham nada a ver com o tópico de debate naquela noite, sendo, na verdade, ataques contra a confiabilidade do retrato bíblico de Deus. Em suma, eu acho que eu disse exatamente o que você disse que eu deveria ter dito, juntamente com a recomendação do livro de Paul Copan “Is God a Moral Monster?” [Deus é um Monstro Moral?] para aqueles que estão interessados em pesquisar a questão da ética bíblica.

2. A sua segunda pergunta tem a ver com a segunda parte da minha primeira disputa, a saber, que o teísmo fornece um fundamento sólido para deveres morais objetivos. A estratégia do autor da pergunta era tentar mostrar que eu fui pego na mesma dificuldade que eu pressionei contra a visão de Harris, isto é, que enquanto a ciência pode nos dizer o que é o caso, não pode nos dizer o que deve ser o caso. Com relação a essa objeção, eu acho que você está absolutamente correto que (a) é um problema para o naturalismo, não para o teísmo, e foi por isso que eu tive o cuidado de não generalizar minha objeção, dizendo que você não pode derivar um "deve" de um "é". Para a minha opinião sobre isso, veja a Pergunta da Semana #165. Como expliquei no debate, parece-me que as obrigações morais surgem em decorrência de imperativos emitidos por uma autoridade competente ou qualificada. Na ausência de tais imperativos, os deveres morais objetivos não existem. No teísmo, Deus, como o Bem, é eminentemente qualificado para emitir comandos morais.

Onde o questionador deu um passo em falso foi em pensar que, na minha visão, os deveres morais surgem simplesmente da existência de Deus, a que não é a visão. Suponha que Deus nunca tenha criado um mundo concreto ou um mundo em que a forma de vida mais elevada fosse de coelhos, de modo que não haveria agentes morais criados. Nesse caso, Deus não iria emitir qualquer comando, e assim não haveria obrigações morais ou proibições de qualquer espécie. Eu suspeito que o questionador estava confundindo valores morais com os deveres morais (estes não são a mesma coisa: seria bom você se tornar um médico, mas você não está moralmente obrigado a se tornar um médico). O primeiro é fundamentado no próprio Deus, este último em mandamentos de Deus.

Tenha cuidado, porém, para não confundir semântica moral com ontologia moral. Como expliquei durante o debate, a semântica moral tem a ver com o significado dos termos morais como "bom" e "certo". Teístas não estão oferecendo definições teístas de termos morais. Não estamos dizendo, por exemplo, que "obrigatório" significa "comandado por Deus", ou algo assim. Estamos usando os termos em seu sentido comum em inglês. O que estamos fazendo é oferecendo uma ontologia de valores e deveres morais que os fundamenta na realidade de Deus e seus comandos. Isto é muito importante porque Harris estava fazendo uma reivindicação semântica: definindo "bom" como "o bem-estar das criaturas conscientes." Foi só com base nisso que ele poderia descartar como sem sentido a pergunta óbvia, por que, no ateísmo, o bem-estar das criaturas conscientes é objetivamente bom? O problema para ele é que não somente a palavra em inglês "bom" não significa o que ele diz (olhe em qualquer dicionário), mas a sua re-definição é arbitrária e idiossincrática.

3. Sua terceira pergunta tem a ver com a primeira parte da minha segunda afirmação, que no ateísmo não temos uma base sólida para os valores morais objetivos. Já que o meu argumento "nocaute" (argumento derrubador) contra a posição de Harris foi bastante técnico, deixe-me reproduzi-lo aqui do meu segundo discurso:

Na penúltima página de seu livro, Harris faz a admissão de que se as pessoas como estupradores, mentirosos e ladrões pudessem ser tão felizes quanto as boas pessoas, então sua paisagem moral não seria mais uma paisagem moral; em vez disso seria apenas um continuum de bem-estar, cujos picos são ocupados por pessoas boas e más igualmente (p. 190).

O que é interessante sobre isso é que no início do livro, Harris observou que cerca de três milhões de americanos são psicopatas, ou seja, eles não se preocupam com os estados mentais dos outros. Pelo contrário, eles gostam de infligir dor em outras pessoas (pp. 97-99).

Isso implica que há um mundo possível que podemos conceber em que o continuum de bem-estar humano não é uma paisagem moral. Os picos de bem-estar poderiam ser ocupados por pessoas más. Mas isso implica que, no mundo real, o continuum de bem-estar e da paisagem moral não são idênticos também. Pois identidade é uma relação necessária. Não há nenhum mundo possível em que uma entidade A não seja idêntica a A. Então, se há qualquer mundo possível em que A não é idêntico a B, segue que A não é, de fato, idêntico a B.

Uma vez que é possível que o bem-estar humano e o bem moral não sejam idênticos, segue, necessariamente, que o bem estar humano e o bem moral não são os mesmos, como Harris afirmou.

Não é sempre na filosofia que se encontra um argumento derrubador (ou argumento nocaute) contra uma posição, mas parece que temos um aqui. Ao conceder que é possível que o continuum de bem-estar não seja idêntico à paisagem moral, a visão de vista de Harris torna-se logicamente incoerente.

O ponto é que, se os referentes de dois termos (como "3" e “√9") são idênticos, eles são necessariamente idênticos. Mas Harris admite que a paisagem moral e o continuum de bem-estar podem desmoronar. Isso é absolutamente fatal para a sua tentativa de identificar bondade moral com o bem-estar das criaturas conscientes. Acontece que eles não podem ser a mesma coisa. Então, todo o seu projeto ético desmorona.

É inútil dizer que eles estão suficientemente próximos um do outro porque ele não conseguiu evitar a pergunta: por que, no ateísmo, o bem-estar das criaturas conscientes é objetivamente bom? Lembre-se que a fuga dele da questão foi dizer que a pergunta não faz sentido porque ele redefiniu "bom" para significar "o bem-estar das criaturas conscientes." Mas já que a bondade e o bem-estar das criaturas conscientes não são idênticos, a pergunta é claramente significativa e urgente para a sua visão.

Mas você quer dizer, eu acho, "suficientemente próximo" para servir como um guia para o comportamento moral. Esta pergunta, no entanto, confunde a ontologia moral com a epistemologia moral. Essa fusão é tão difundida entre os estudantes que se houvesse uma distinção que eu pudesse enfiar na cabeça deles, seria esta. Ontologia moral lida com a realidade dos valores e deveres morais; epistemologia moral trata de como chegamos ao conhecimento de quais valores e deveres morais existem. Como expliquei várias vezes, não estou fazendo qualquer tipo de afirmação sobre como chegamos a descobrir o que é bom e deveres que nós temos. Eu estou sinceramente aberto a qualquer tipo de epistemologia moral que meu interlocutor poderia propor. (É por isso que algumas das publicidades para o debate eram enganosas na caracterização de minha posição, como descobrindo valores morais através de revelação divina. Eu nem defendo nem acredito em tal afirmação.)

Agora, no caso de Harris, eu não acho que o bem-estar das criaturas conscientes é um bom guia para descobrir os nossos deveres morais. Na verdade, parece-me que leva naturalmente a eugenia. Isso seria o fim para pessoas como Stephen Hawking, ou mesmo eu! Na visão de Harris se torturar uma menina até a morte de alguma forma fosse conduzir a um maior bem-estar das criaturas conscientes, então não somente é permitido, mas você está moralmente obrigado a torturá-la até a morte, o que é inconcebível. Harris está ciente desses problemas (lembre-se de seu exemplo do médico que poderia salvar cinco vidas colhendo os órgãos de um paciente saudáveis?), E suas tentativas de evitar as conseqüências de sua teoria são muito pouco convincentes (podemos imaginar que o médico sabe que ninguém vai descobrir o que ele fez). Então, enquanto eu concordo que, tudo o mais sendo igual, é bom que criaturas conscientes floresçam, eu não acho que isso seja um guia confiável para descobrir os nossos deveres morais.

- William Lane Craig