#246 Uma Contradição no Argumento Cosmológico Kalam?
January 14, 2015Me deparei com um blogueiro que se chama Angra Mainyu (espírito de destruição) que tem pensado muito sobre o argumento Kalam e baseia diversas de suas objeções nas seguintes citações do seu trabalho. Estou realmente esperando ouvir sua resposta
1) Uma contradição decorre da posição de William Lane Craig:
William Lane Craig e J. P. Sinclair:
um "evento" significa qualquer mudança. Já que qualquer mudança leva tempo, não há nenhum evento instantâneo definido assim. Nem poderia haver um evento infinitamente lento, já que um "evento" iria, na realidade, ser um estado imutável. Portanto, qualquer evento terá uma duração finita, de não-zero. (William Lane Craig e J. P. Sinclair, "O Argumento Cosmológico Kalam", em "The BlackWell Companion to Natural Theology” [O companheiro Blackwell à Teologia Natural], editado por William Lane Craig e J. P. Moreland, 2009 Blackwell PublishingLtd. Página 106.)
William Lane Craig:
A razão de eu manter que Deus é atemporal sem o universo é que eu acho que uma regressão infinita de eventos é impossível e, de acordo com uma teoria relacional de tempo, na ausência de qualquer evento o tempo não existiria. A razão de que eu manter que Deus é temporal desde o começo do universo é que a criação do universo traz Deus para uma nova relação, ou seja, a coexistência com o universo. Tal mudança tão extrínseca apenas (sem mencionar o exercício de poder causal de Deus) é suficiente para uma relação temporal. (http://www.reasonablefaith.org/site/News2?page=NewsArticle&id=5673)
William Lane Craig:
Então se Deus é atemporal, ele também é sem mudança, mas isso não quer dizer que Ele não pode mudar. Eu diria que Ele pode mudar e se Ele fosse fazer isso, Ele deixaria de ser atemporal. E é exatamente isso o que eu acho que Ele fez. (http://www.reasonablefaith.org/site/News2?page=NewsArticle&id=5971)
Deus muda de atemporal para temporal.
Qualquer mudança é um evento, então permita que E(0) seja o evento "Deus muda de atemporal para temporal."
Vamos supor que (como Craig defende):
a) O tempo começa a existir, em t = 0.
b) O conceito de atemporalidade é coerente.
c) O mundo contém um estado de coisas C em que Deus existe atemporalmente.
d) Deus existe em t = 0.
e) A Teoria-A do tempo é verdadeira.
Sob essas premissas, em C, não é o caso que o tempo existe, então não é o caso que Deus sabe que existe o tempo. Em t = 0, Deus sabe que existe o tempo. Assim, existe uma mudança em Deus, a partir de C para t = 0.
Deixe E(0) ser o evento "Deus muda de um estado em que ele não sabe que existe o tempo a um estado em que ele sabe que o tempo existe".
Então, E(0) é um evento que termina no instante t = 0. Permita e>0 ser a duração de E (0).
Então, ou há um intervalo de tempo [-e, 0], ou pelo menos um intervalo aberto não vazio (-e, 0]. De qualquer forma, o tempo existe antes de t = 0, contradizendo a suposição de que o tempo começa a existir em t = 0. [1]
Kevin
United States
Dr. Craig responde
A
Estas declarações citadas certamente parecem ser inconsistentes! Parte dessa aparência é devido ao blogueiro misturar citações de fontes diferentes, algumas das quais são trabalhos populares em que se sacrifica precisão técnica por a comunicabilidade. Vamos tentar classificar as inconsistências.
A primeira citação surge no contexto do segundo argumento filosófico em defesa da premissa de que o universo começou a existir. Esse argumento contém a premissa
2.12. Um regresso temporal infinito de eventos é um infinito atual (real).
Aqui é fundamental que se esteja claro sobre o que constitui um evento. Estou prevendo que os eventos mencionados em "um regresso temporal infinito de eventos" têm cada um duração igual, arbitrária e não-zero. O que eu quero descartar são eventos instantâneos, antes que se pense da série de estados instantâneos entre, digamos, 01:01 e 1:00 da manhã como um regresso temporal infinito de eventos. Portanto neste sentido técnico, o fato de que alguém ganhasse uma corrida não conta como um evento, assim definido, porque não é temporalmente estendido, mas instantâneo. A razão de eu dou para restringir assim o leque de "evento" é que eu estou falando de mudanças e as mudanças levam tempo para ocorrer. Quero argumentar que não pode ter havido uma regressão infinita de eventos assim definida. Deve ter havido um primeiro evento de duração de não zero. (Note que esta conclusão é consistente com a existência de intervalos temporais anteriores ao primeiro evento, desde que eles não sejam suficientemente longos para se qualificarem como um evento em si).
Segue imediatamente que, sobre essa definição, a criação do universo por Deus não se qualificaria como um evento, já que ela é instantânea e não envolve nenhum lapso de tempo. Da mesma forma, o fato de que Deus se torna temporal (se Ele é atemporal sem a criação) não pode referir-se a um evento, já que não tem uma duração diferente de zero. Da mesma forma, o fato de que Deus toma conhecimento de todas as verdades temporais não se qualificaria como um evento, já que isso também acontece instantaneamente. Conclui-se que, neste sentido técnico, não se deve falar do fato de Deus tornando-se temporal ou vindo a conhecer as verdades temporais como uma mudança em Deus. Não há começo ou fim de tais "eventos", mais do que há um começo ou fim de começar a mover-se ou vir a existir. Em t0 Deus é temporal, sabe que existe o tempo e sabe as verdades temporais sem que tenha sido ou feito isso anteriormente (não havendo "anteriormente!").
A segunda e terceira citações entram no contexto da discussão do relacionamento de Deus com o tempo. Aqui eu estava usando a palavra "mudança" em um sentido diferente do sentido que leva no argumento kalam. Ao dizer que Deus mudou ao criar o mundo, eu quis dizer apenas que Deus não é o mesmo em seu estado atemporal e em Seu primeiro estado temporal. Ele tem propriedades diferentes. Nesse sentido Ele muda. Mas essa diferença não ocorre ao longo do tempo e, portanto, não é uma mudança ou um evento no sentido de que se fala no argumento kalam.
Agora, se você pensa que o fato de que Deus se torna temporal ou chega a conhecer verdades temporais deveria contar como uma mudança, tudo bem; apenas volte para a segunda premissa do argumento filosófico contra um regresso temporal infinito de eventos e esclareça que o que você está falando ali são mudanças de um tipo peculiar: eventos de duração igual, arbitrária, e de não-zero.
Em outras palavras, a contradição aqui é meramente verbal e pode ser facilmente removida apenas por esclarecer e usar corretamente os termos. Nada foi dito que prejudica tanto o argumento cosmológico kalam ou a visão de que Deus é atemporal sem a criação e temporal a partir do momento da criação.
Notas
A escolha da mudança de Deus de atemporalidade para temporalidade como o evento é apenas uma possibilidade.
Existem (outras) alternativas. Por exemplo, vamos dizer que o mundo real contém um estado de coisas C em que Deus existe atemporalmente. Então em C o tempo não existe, então não é o caso que Deus sabe que existe o tempo. Por outro lado, em t = 0, Deus sabe que existe tempo. Deixe que E(1) ser o evento "Deus vem a saber que existe o tempo."
Outra alternativa seria: Em C, não há fatos temporais. Então, não é o caso de que Deus sabe qualquer fato temporal. Em t = 0, existem fatos temporais, então Deus conhece fatos temporais. Assim, a mente de Deus mudou - ele veio a conhecer fatos temporais - e, pode-se considerar o evento E(2) "Deus muda de não saber nenhum fato temporal em C para conhecer alguns fatos temporais em t = 0".
-
[1]
Em seu site, Craig diz que não é claro para ele que a própria criação é um evento que determina um antes e um depois.
No entanto, aquele E (0) - ou, até mesmo, E (1), ou E (2) - é um evento segue diretamente da definição de "evento": um evento é qualquer mudança e Craig mesmo diz que Deus mudou.
Além disso, Craig afirma que qualquer evento leva tempo. Uma contradição segue.
Mas em todo caso, vamos supor que o evento E (2) "Deus muda de não saber nenhum fato temporal em C para conhecer alguns fatos temporais em t = 0" tem zero de duração - contradizendo a afirmação de Craig que qualquer evento tem uma duração finita de não-zero.
Assim, no início do evento, não é o caso de que Deus conhece todos os fatos temporais – já que o evento é justamente a mudança em Deus de não saber nenhum fato temporal para conhecer alguns fatos temporais.
Por outro lado, no final do evento Deus sabe alguns fatos temporais.
Agora como o evento termina no instante t = 0 e sua duração é zero, também começa em t = 0.
Assim, em t = 0, Deus não conhece nenhum fato temporal e em t = 0 Deus sabe alguns fatos temporais. Mas isso é impossível.
Alguém poderia objetar que E (2) não começa em t = 0, mas no "estado atemporal" C.
No entanto, usando a palavra "atemporal" não é uma licença para contornar a lógica: se o evento termina em t = 0, e sua duração é literalmente zero, então o seu início está presente também em t = 0.
Em seu site, Craig diz que não é claro para ele que a própria criação é um evento que determina um antes e um depois.
No entanto, aquele E (0) - ou, até mesmo, E (1), ou E (2) - é um evento segue diretamente da definição de "evento": um evento é qualquer mudança e Craig mesmo diz que Deus mudou.
Além disso, Craig afirma que qualquer evento leva tempo. Uma contradição segue.
Mas em todo caso, vamos supor que o evento E (2) "Deus muda de não saber nenhum fato temporal em C para conhecer alguns fatos temporais em t = 0" tem zero de duração - contradizendo a afirmação de Craig que qualquer evento tem uma duração finita de não-zero.
Assim, no início do evento, não é o caso de que Deus conhece todos os fatos temporais – já que o evento é justamente a mudança em Deus de não saber nenhum fato temporal para conhecer alguns fatos temporais.
Por outro lado, no final do evento Deus sabe alguns fatos temporais.
Agora como o evento termina no instante t = 0 e sua duração é zero, também começa em t = 0.
Assim, em t = 0, Deus não conhece nenhum fato temporal e em t = 0 Deus sabe alguns fatos temporais. Mas isso é impossível.
Alguém poderia objetar que E (2) não começa em t = 0, mas no "estado atemporal" C.
No entanto, usando a palavra "atemporal" não é uma licença para contornar a lógica: se o evento termina em t = 0, e sua duração é literalmente zero, então o seu início está presente também em t = 0.
- William Lane Craig