#289 Podemos Nos Referir a Coisas Que Não Estão No Presente?
May 16, 2015Bom Dia Dr. Craig!
Eu sou um estagiário do campus missionário Chi Alpha na Universidade Aubrun e seu trabalho tem sido instrumental em pensar sobre a minha fé e do relacionamento que Deus tem com cada parte da minha vida e cosmovisão. Agora eu estou trabalhando com a minha própria compreensão do tempo e relação de Deus com ele. Tenho feito algumas leituras na Standford Philosophical Encyclopedia sobre o tempo e me deparei com um artigo escrito por Ned Markosian e ele apresentou alguns problemas para o teórico-A, particularmente para o presentista que eu sei que você é e afirmou repetidamente em seu trabalho e gostaria de contar com seus pensamentos sobre esta questão.
Este é o meu problema: presentismo significa que só o presente existe agora, mas então há um problema com a tentativa de falar significativamente sobre objetos não-presentes. Por exemplo, Jesus de Nazaré é um objeto não-presente e há fatos sobre o que ele fez e falou em seu ministério, mas como nós podemos dizer significativamente que Jesus realmente existiu e isso é o que ele realmente disse e fez. Se o presentismo é verdadeiro e só o presente existe agora, como podemos significativamente falar do que uma vez existiu e falar sobre a maneira particular em que existiu. Eu sinto que o que eu estou falando é bastante nebuloso, mas como um filósofo do tempo eu tenho certeza que você pode ter empatia com a dificuldade de expressar essas ideias com clareza. Eu fiz o meu bacharelado em história na Universidade de Longwood então pensamento histórico e filosofia de tempo tem uma relação interessante!
Um teórico do universo crescente pode oferecer uma solução para isto em que Jesus de Nazaré existiu e havia uma certa maneira em que seu ministério aconteceu e existiu no passado, mas o problema com essa visão como você expressou no podcast Defenders, isso implica que Jesus ainda está pendurado sobre a cruz e os pecados do passado ainda estão lá e exterminados. Então como é que um presentista lida com a questão de objetos não- presentes que já existiram?
Muito obrigado por tirar tempo para ler isto e oferecer seus pensamentos!
Will
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Will, eu não acredito que você fez esta pergunta! Nunca deixa de me surpreender como as pessoas fazem as perguntas filosóficas mais profundas, talvez nem mesmo sabendo o que encontraram! Na verdade, a sua pergunta cruza meu trabalho atual (e é por isso que eu escolhi ela!) e é discutida no meu capítulo sobre neo-Meinongianismo que eu escrevi neste verão. Então aqui está o negócio: presentistas pensam que a única vez que o que existe é o tempo presente. (Nota: você não deve dizer, como você faz, "existe agora", porque todo mundo concorda que só o presente existe agora, ou seja, no presente.) Os não-os presentistas acham que os tempos que são anteriores ou posteriores ao presente também existem; o presente não é mais real do que o passado ou futuro. (Como você notar, alguns não-presentistas dizem que o futuro é irreal, enquanto que o passado e o presente são igualmente reais.)
Assim, a objeção ao presentismo é que já que as coisas que são passado ou futuro não existem, não podemos nos referir a elas ou até mesmo dizer que havia tais coisas ou haverão tais coisas. Segue que não há, portanto, verdades passadas temporais e não há verdades futuro temporais. Mas isso é obviamente errado. Então o presentismo deve ser rejeitado; tudo no tempo é igualmente real, e tornar-se temporal é uma ilusão da consciência humana.
Agora o Markosian é ele mesmo um presentista, então ele apenas morde a bala e concorda que, a rigor, todos as declarações (contingentes) temporais do passado e futuro são falsas. Agora eu acho a posição de Markosian totalmente implausível. [1] Ulrich Meyer está certo: "César cruzou o Rubicão; isso foi o que começou a guerra civil. Qualquer visão filosófica que nos obriga a negar afirmações como [essa] é por essa razão inaceitável." [2] Como um estudante de história você tem toda a razão de ser cético de afirmações filosóficas que sua disciplina é um tecido de mentiras!
Mas será que presentismo carrega tal implicação implausível? Só se você adotar uma visão de referência e quantificação que é eminentemente mutável e em desacordo com a linguagem comum.
Veja, tanto Markosian e o não-presentista estão tacitamente supondo que você pode referir-se com sucesso a algo ou dizer que existiu (ou existirá) algo apenas se essa coisa existe. Este pressuposto é o nervo real do argumento, não a teoria do tempo da pessoa.
Em contrapartida, o Neo-Meinongianos como Richard Routley rejeitam o que ele chama de Suposição Ontológica, a saber,
SO. Nenhuma afirmação verdadeira sobre o que não existe é verdade.
Curiosamente, uma das peças mais poderosas de provas que Routley dá contra (SO) é precisamente a verdade de certas declarações temporais sobre indivíduos não mais existentes ou ainda não existentes. Por exemplo, parece indiscutivelmente verdade que "Houve 44 presidentes dos Estados Unidos." A não-existência da maioria deles não é impedimento nós quantificarmos os ex-presidentes norte-americanos. Para inferir a partir da verdade de tais afirmações que o tempo é, de fato, atemporal e que indivíduos passados e futuros estão em pé de igualdade ontológica com indivíduos presentes seria fazer uma inferência metafísica de tirar o fôlego com base em um pedacinho das teorias de referência e quantificação subjacentes (SO).
Eu e muitos outros filósofos que não são neo-Meinongianos, achamos que uma teoria ontologicamente neutra de quantificação não é apenas eminentemente plausível, mas também em acordo com a linguagem comum. Considere a lista de algumas das coisas que normalmente dizemos que existem de Thomas Hofweber:
• algo que temos em comum
• infinitamente muitos números primos
• algo que ambos acreditamos
• a ilusão comum que alguém é mais esperto do que um colega mediano de alguém
• um jeito que você sorri
• a falta de compaixão no mundo
• a forma como o mundo é
• um caminho mais rápido de chegar a Berkeley de Stanford do que passar por San Jose. [3]
Por que achar que "há" (para não mencionar "havia" ou "haverá"!) está comprometendo ontologicamente? W. V. O. Quine, a fonte do critério de compromisso ontológico anterior (SO), reconheceu que a aplicação de tal critério para a linguagem comum traria com ela todos os tipos de comprometimentos ontológicos fantásticos e indesejados, e por isso ele limitou sua aplicação legítima apenas a uma linguagem canônica artificial. O problema com esta restrição é que não temos nenhuma pista a respeito de como construir tal linguagem artificial com sucesso. [4] Dada a falência do projeto Quineano, seu critério de comprometimento ontológico se torna um guia extremamente não confiável.
O mesmo vale para referência. Demasiados filósofos, penso eu, ainda estão no encalço de uma espécie de teoria pictórica da linguagem, segundo a qual os termos relativos bem sucedidos devem ter objetos correspondentes no mundo. No que diz respeito à linguagem comum, pelo menos, tal visão parece claramente falsa. Considere os seguintes exemplos:
• O clima em Atlanta vai ser quente hoje.
• O desapontamento de Sherrie com seu marido foi profundo e indiscutível.
• O preço dos bilhetes é de dez dólares.
• Quarta-feira cai entre terça-feira e quinta-feira.
• Sua sinceridade foi comovente.
• James não podia pagar sua hipoteca.
• A vista do vale de Jezreel do topo do Monte Carmelo foi de tirar o fôlego.
• Sua queixa constante é fútil.
• A perda de Spassky terminou a partida.
• Ele fez isso por amor de mim e as crianças.
Seria fantástico pensar que todos os termos singulares existentes nestas frases plausivelmente verdadeiras tem objetos no mundo que lhes correspondem. Exemplos como esses são uma legião. Na verdade, eu vim a suspeitar que os termos singulares que se referem a objetos do mundo real podem na verdade ser a exceção e não a regra. Considere o seguinte parágrafo citado por Michael Dummett de um jornal de Londres:
Margaret Thatcher deu ontem seu sinal mais forte até hoje sobre os perigos do aquecimento global causado pela poluição do ar. Mas ela não anunciou qualquer nova política de combate às alterações climáticas e do aumento do nível do mar, além de um compromisso qualificado que a Inglaterra iria estabilizar as suas emissões de dióxido, o gás 'efeito estufa' mais importante alterando o clima, até o ano de 2005. Grã-Bretanha apenas cumpriria esse compromisso se outras nações não especificadas prometessem contenção semelhante.
Nada incomum sobre esse discurso, mas, como Dummett observa, "Além de 'Margaret Thatcher', 'ar' e 'mar', não existe um substantivo ou frase substantiva neste parágrafo indiscutivelmente representando ou aplicando a um objeto concreto. . . . " [5] Um platonista leve, Dummett permanece imperturbável em postular objetos como referentes a esses termos, mas aqueles que têm um sentido mais forte da realidade pode ser desculpado por ser hesitante em aumentar a população mundial tão dissolutamente.
Vale ressaltar que em debates sobre presentismo atemporal teóricos do tempo tendem simplesmente a pressupor o critério de Quine de comprometimento ontológico, e assim nossa capacidade de falar de indivíduos do passado/futuro em frases verdadeiras nos leva a nos comprometer com a sua existência. Nunca parece ocorrer a teóricos atemporais do tempo que a nossa capacidade de falar de indivíduos puramente no passado/futuro em frases verdadeiras pode ser uma boa razão para rejeitar o critério de comprometimento ontológico que eles inquestionavelmente pressupõem.
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[1]
Ned Markosian, “A Defense of Presentism,” Oxford Studies in Metaphysics 1 (2004): 47–82.
Ned Markosian, “A Defense of Presentism,” Oxford Studies in Metaphysics 1 (2004): 47–82.
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[2]
Ulrich Meyer, “The Presentist’s Dilemma,” Philosophical Studies 122 (2005): 223.
Ulrich Meyer, “The Presentist’s Dilemma,” Philosophical Studies 122 (2005): 223.
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[3]
Thomas Hofweber, “Ontology and Objectivity” (Ph.D. dissertation, Stanford University, 1999), pp. 1-2. Para uma boa declaração deste ponto junto com uma crítica persuasiva do que ele chama de "o argumento de quantificação," ver Gerald Vision, “Reference and the Ghost of Parmenides,” em Non-Existence and Predication, ed. Rudolf Haller, Grazer Philosophische Studien 25-26 (Amsterdam: Rodopi, 1986), pp. 297-36. Nós dizemos que há, por exemplo, tons de cinza, diferenças de altura, ângulos de onde algo pode ser visto, princípios, hostilidades, perspectivas para o sucesso, números primos entre 2 e 12, horas antes do amanhecer, excessos perigosos, desvantagens para o plano, etc.
Thomas Hofweber, “Ontology and Objectivity” (Ph.D. dissertation, Stanford University, 1999), pp. 1-2. Para uma boa declaração deste ponto junto com uma crítica persuasiva do que ele chama de "o argumento de quantificação," ver Gerald Vision, “Reference and the Ghost of Parmenides,” em Non-Existence and Predication, ed. Rudolf Haller, Grazer Philosophische Studien 25-26 (Amsterdam: Rodopi, 1986), pp. 297-36. Nós dizemos que há, por exemplo, tons de cinza, diferenças de altura, ângulos de onde algo pode ser visto, princípios, hostilidades, perspectivas para o sucesso, números primos entre 2 e 12, horas antes do amanhecer, excessos perigosos, desvantagens para o plano, etc.
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[4]
Como Chihara aponta, Quine não dá nem mesmo uma sugestão sobre a forma como devemos colocar as frases da linguagem comum em uma forma canônica nem qualquer argumento de que fazê-lo irá livrá-los de todos os compromissos indesejados da linguagem ordinária, nem qualquer garantia de que as nossas melhores teorias científicas podem ser colocadas com sucesso em notação lógica de primeira ordem (Charles S. Chihara, Ontology and the Vicious Circle Principle [Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1973], cap. 3; idem, Constructibility and Mathematical Existence [Oxford: Clarendon Press, 1990], cap. 2).
Como Chihara aponta, Quine não dá nem mesmo uma sugestão sobre a forma como devemos colocar as frases da linguagem comum em uma forma canônica nem qualquer argumento de que fazê-lo irá livrá-los de todos os compromissos indesejados da linguagem ordinária, nem qualquer garantia de que as nossas melhores teorias científicas podem ser colocadas com sucesso em notação lógica de primeira ordem (Charles S. Chihara, Ontology and the Vicious Circle Principle [Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1973], cap. 3; idem, Constructibility and Mathematical Existence [Oxford: Clarendon Press, 1990], cap. 2).
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[5]
Michael Dummett, Frege: Philosophy of Mathematics (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1991), p. 231.
Michael Dummett, Frege: Philosophy of Mathematics (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1991), p. 231.
- William Lane Craig