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#719 Refutação neuroquímica de Deus

March 23, 2021
Q

Caro senhor,

Sou neurologista que lida com pacientes sofrendo de distúrbios de movimento e, particularmente, o mal de Parkinson. Alguns deles podem receber medicamentos como agonistas receptores de dopamina. Estes ativam os receptores de dopamina no cérebro, e o principal objetivo é melhorar os movimentos dos pacientes. Esses medicamentos podem levar a efeitos colaterais que denominamos desordens do controle de impulso. Algumas delas dizem respeito à sexualidade, e em casos raros os pacientes talvez até mudem de orientação sexual, virando homossexuais, ou sintam a necessidade de se vestir como mulheres, e assim por diante... Quando param a medicação, voltam ao que eram antes, heterossexuais. E o que mais surpreende é que os pacientes não percebem nem têm a noção da modificação da sua sexualidade.

Outra opção de tratamento para doença de Parkinson é estimulação cerebral profunda no núcleo subtalâmico. Este núcleo tem diferentes partes funcionais, entre elas as partes cognitiva e límbica. Alguns dos meus pacientes também mudam de comportamento e, em especial, novamente o seu comportamento sexual, tendo também dificuldades em controlar os seus impulsos sexuais (como acontece com agonistas receptores de dopamina). Quando modificamos os parâmetros de estímulo, esses sintomas desaparecem. Portanto, podemos mudar uma parte das intenções e comportamentos mais íntimos de alguém. Podemos fazê-lo pecar (do ponto de vista cristão, que, teoricamente, é o ponto de vista de Deus). Parece-me que Deus é “apenas” uma questão muito complexa de neurociência que ainda não entendemos completamente e que a existência de Deus é “apenas” uma questão de fé.

A minha pergunta é a seguinte: conforme observado acima, se podemos modificar as intenções mais íntimas de alguém por meio de algum medicamento, fazendo-o pecar, como é que Deus pode existir em tudo isso? Deus não está na nossa rede neuronal incrivelmente sofisticada que chamamos de cérebro, até mesmo para explicar atividades mentais como intencionalidade e autoconsciência?

Meus cumprimentos de Paris,

Vadim

França

Dr. Craig responde


A

Meu pai morreu lentamente dos estragos causados pelo mal de Parkinson, Vadim, e por isso agradeço por seu empenho em combater essa terrível doença. Enquanto lia a sua pergunta, pensava que você estava indo numa direção completamente diferente, até a reviravolta inesperada no fim. Pensava que você ia perguntar se Deus responsabilizaria moralmente as pessoas tratadas com as drogas que você descreveu, depois executando as ações que Deus proscreve. A minha resposta ia ser que tais pessoas que estão sob o efeito de drogas ou estimulantes administrados por um médico não são culpáveis pelas ações proscritas. No caso, não pecam, assim como alguém empurrado contra outra pessoa não é moralmente responsável por qualquer dano causado.

Mas a sua pergunta foi bem diferente! Você quer saber se Deus pode existir, se os neurologistas são tão capazes de afetar a atividade cerebral da pessoa com drogas ou estímulos, de modo a levar tal pessoa a fazer coisas que, normalmente, não o faria. Pois bem, é difícil ver algum problema aí. Deus nos deu corpos e cérebros incrivelmente complexos que operam conforme leis naturais, e assim devemos esperar que, se mexermos com a química do cérebro ou os disparos neuronais, naturalmente haverá efeitos que, do contrário, não ocorreriam. Como alguém não consegue ficar bêbado sem efeitos físicos, assim também alguém cujo cérebro foi alterado artificialmente se comportará de maneira distinta. No caso, não há aí nenhuma surpresa.

Tampouco há nisto qualquer fundamento para a conclusão generalizante de que “Deus é ‘apenas’ uma questão muito complexa de neurociência que ainda não entendemos completamente”. De fato, não tenho certeza de que sequer entendo essa hipótese. Você perguntou: “Deus não está na nossa rede neuronal incrivelmente sofisticada que chamamos de cérebro, até mesmo para explicar atividades mentais como intencionalidade e autoconsciência?”. Mesmo pressupondo o ateísmo, tal sugestão é, simplesmente, bizarra. Deus seria uma rede de neurônios e sinapses que reside no seu crânio? O seu cérebro seria Deus? Isto o tornaria politeísta, penso eu, uma vez que haveria, então, uma pluralidade de deuses vindo à existência e morrendo todos os dias.

E por que o cérebro? Por que não dizer que o nosso sistema digestivo é Deus? Talvez você pense que precisamos de “Deus” para explicar a intencionalidade e a autoconsciência, e o sistema digestivo não ficaria à altura da tarefa. Isto me faz pensar se interpretei mal a sua pergunta. Talvez você esteja sugerindo que Deus é ser imaterial que, de alguma maneira, habita nossos cérebros para produzir a intencionalidade e a autoconsciência. No entanto, os teístas não apelam para Deus para explicar tais fenômenos. Antes, apela-se para a mente ou alma para explicar a intencionalidade e a autoconsciência, que não podem ser explicadas de modo puramente físico. A questão não tem a ver com o teísmo, mas, sim, com o dualismo de corpo e mente. Discuto este ponto nas minhas aulas Defenders sobre a doutrina do homem.

Em todo caso, não vejo nenhuma razão para pensar que “a existência de Deus é ‘apenas’ uma questão de fé”. Conforme tento mostrar no meu livro Apologética contemporânea: a veracidade da fé cristã (São Paulo: Vida Nova, 2012), há boas razões para pensar que Deus — i.e., um criador e arquiteto transcendente do universo que é o paradigma da bondade moral — existe.

- William Lane Craig