#40 Stuart Hackett
July 12, 2012Dr. Craig,
Por favor, partilhe as suas melhores lembranças do Dr. Stuart Hackett e que influência ele teve no seu pensamento.
Obrigado,
David
United States
Dr. Craig responde
A
Deparei-me com Stuart Hackett pela primeira vez no primeiro semestre como calouro em Wheaton College. A faculdade exigia de todos os estudantes um curso de Introdução à Filosofia, e como se encaixava no meu horário, fiz a minha matrícula. Devo confessar que não gostava particularmente das aulas. Era basicamente um curso que examinava a história da filosofia ocidental. Fazendo uma retrospectiva, acho que esse é o tipo errado de curso exigido de estudantes iniciantes. Sem nenhum fundamento em filosofia, ficava aturdido com a procissão de pensadores — Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Leibnitz e assim por diante — todos eles jorrando opiniões esquisitas, contraditórias e igualmente sem substância a respeito das coisas. Tragicamente, apesar de eu ter conseguido a nota máxima nas aulas, saí pensando que a filosofia era simplesmente irrelevante. Acho que teria sido muito melhor que esse curso fosse ensinado tematicamente, concentrando a atenção em várias das “grandes questões”, como a liberdade da vontade, a natureza do conhecimento, a existência de Deus, e daí para a frente, além de mostrar a relevância dessas questões para a teologia cristã.
Dr. Hackett era uma figura excêntrica! Ele sempre chegava trazendo a valise e uma garrafa d’água de plástico verde com um adesivo dos aditivos STP colado nela. Ele nos dizia que usava gravatas só porque a esposa o obrigava, mas como um gesto de independência, acho eu, usava as gravatas mais ridículas que se poderia imaginar, inclusive algumas monstruosidades costuradas em casa pela sua filha. Desafiava qualquer um da classe, que não fizesse parte da equipe de atletismo, para uma disputa de flexões de braço (havia o rumor de que só havia perdido uma vez em sua carreira). Quando dava aulas, suas frases eram tão longas e prolixas que, quando as terminava, eu já tinha perdido meu pensamento no emaranhado de orações subordinadas e advertências. Ele tinha o hábito de reformular nossas perguntas simples, começando com algo como: “Com isso, você quer dizer… ?” e ia-se embora numa reformulação rebuscada, deixando o pobre aluno nas trevas da ignorância sem a certeza do que exatamente havia perguntado! No começo, pensava que ele estivesse representando, mas aos poucos passei a entender que muito naturalmente se expressava por orações longas e germânicas. Esforçava-me com afinco procurando entendê-lo, mas temo que não tive muito sucesso.
Acho que o melhor momento de Stu naquele semestre ocorreu no dia em que Jack Wyrtzen, da Associação Palavra da Vida, falou na capela pela manhã. Ele usou o texto de Atos 17 sobre o discurso de Paulo aos filósofos atenienses reunidos no Areópago. Wyrtzen destacou que os filósofos chamaram Paulo literalmente de “catador de sementes”. Mas, na verdade, disse Wyrtzen, os filósofos é que são de fato os catadores de sementes, e prosseguiu ridicularizando os filósofos pelo que eles fazem. Esse achincalhe foi especialmente inadequado e embaraçoso, pois aconteceu na mesmíssima semana em que ocorriam as respeitadas conferências anuais de filosofia de Wheaton. A aula de Hackett foi imediatamente depois da reunião na capela. Quando ele entrou na sala de aula, disse em voz alta: “Todos vocês, catadores de sementes estão prontos?”. Quando as gargalhadas diminuíram, ele falou: “Eis o que tenho a dizer sobre a mensagem de hoje na capela. Quando eu tiver levado ao Reino dos Céus tantas pessoas quanto Jack Wyrtzen já levou, então farei minhas críticas.” Sem mais alvoroço, ele disparou a dar sua aula. Fiquei pensando, “Uau!”.
Jamais havia pensado que, anos mais tarde, eu e Stu seríamos colegas de docência no mesmo departamento. Mas, quando estava encerrando meu doutorado em Munique, recebi uma ligação da Trinity Evangelical Divinity School, oferecendo-me a posição de professor assistente de filosofia. Durante nosso período na Europa, Stu havia deixado sua posição em Wheaton, onde havia empenhado a maior parte da sua carreira, para ensinar no Departamento de Filosofia da Religião com Norman Geisler em Trinity. Norm estava agora deixando a Trinity e indo para Dallas, criando a vaga que agora me era oferecida. Jan e eu discutimos a questão e decidimos aceitar a posição. Portanto, em janeiro de 1980, juntei-me a Stu no departamento em Trinity.
Stu não se encaixava definitivamente nos moldes de um típico professor de seminário, e os alunos adoravam suas excentricidades. Sua querida esposa, Joan, nessa época já tinha desistido de fazê-lo usar gravatas, assim, era comum ele ostentar uma enorme cruz. Deixou a barba crescer, mas (para compensar, dizia ele) raspava a cabeça deixando o cabelo rente. Usava cores contrastantes como roxo e marrom com um cinto de couro, presenteado por seu filho, cuja fivela apresentava um cachimbo de maconha (que ele usava de cabeça para baixo, assim as pessoas não reconheciam a coisa e não se escandalizavam). Ele era o chefe do departamento, e como detestava o serviço burocrático era eficiente demais em seu exercício. Como Stu e eu éramos os únicos membros de tempo integral do departamento, nunca tínhamos reuniões departamentais — ele apenas me chamava ao telefone e despachávamos os assuntos do departamento em poucos minutos.
Descobri que Stu e Joan eram um casal extraordinariamente amável e que tinham um casamento maravilhoso. Pense em opostos! Ela era sempre apropriada e conservadora na aparência e na conduta. Não dava para não pensar em como foi que eles vieram a ficar juntos. Mas a união deles plasmava, para os estudantes, o modelo do que se parece com um casamento cristão. Os estudantes os amavam e estavam sempre na casa deles, para ficarem juntos ou só para uma visitinha. Durante os sete anos que ensinei em Trinity, Jan e eu nos tornamos bons amigos de Joan e Stu. A amizade deles nunca significou tanto para nós quanto nos dias difíceis de 1986, nos quais a administração da Trinity decidiu eliminar o programa de filosofia da religião e fechar nosso departamento. Stu foi deploravelmente desviado para a faculdade de graduação e eu me vi desempregado, agora com dois filhos pequenos para sustentar. Durante essa época, Joan foi como uma mãe para Jan, sempre estava à disposição com palavras de conselho e consolação. Eles nos encorajavam e oravam por nós, enquanto procurávamos emprego em outro lugar. De algumas maneiras, na verdade foi mais fácil para eles do que para nós, pois a perda de meu emprego na Trinity lançou-nos numa carreira totalmente nova, já que retornamos à Europa e passamos sete anos na Universidade de Louvain (Bélgica), ao passo que Stu e Joan tiveram de ficar lá com a lembrança constante de uma administração que não valorizava mais um homem que, sem dúvida, era seu professor mais brilhante. Apesar disso, Stu e Joan suportaram essa provação com graça e bondade.
Eles agora se mudaram de volta para a área de Wheaton, onde podem estar perto dos filhos. Stu está sofrendo os primeiros sintomas do mal de Alzheimer. Seu último livro, sobre a ética, ainda não foi publicado e estou atualmente procurando um editor para ele. Ore por isso.
Em 1971, pouco antes de minha graduação em Wheaton, apanhei um exemplar do livro de Stu, The Resurrection of Theism [A ressurreição do teísmo] num tabuleiro de liquidação na livraria da faculdade. Mais tarde, durante o outono, quando pude ler o livro, fiquei absolutamente aturdido com o que li. Em contraste com aquilo que me haviam ensinado nas aulas de Teologia em Wheaton, Dr. Hackett, com uma lógica devastadora, defendia argumentos a favor da existência de Deus e apresentava refutações a toda e qualquer objeção imaginada contra eles. O ponto central do seu argumento era uma visão do argumento cosmológico ignorada em grande parte: é racionalmente inconcebível que a série de eventos passados seja infinita; é indispensável que tenha havido um princípio do universo e, portanto, uma causa transcendental que o trouxe à existência. A leitura do livro de Hacket foi uma experiência chocante para mim e me abriu os olhos. Eu tinha de descobrir se ele estava certo.
Em 1973, matriculei-me no programa de mestrado em filosofia da religião encabeçado por Norman Geisler em Trinity. Uma das exigências para a entrada no programa em filosofia era o Graduate Record Exam [Nos Estados Unidos, exame padrão exigido de alunos graduados para que possam realizar estudos de pós-graduação]. Assim, em preparação para as provas, li e tomei notas detalhadas da coleção de nove volumes de History of Philosophy [História da filosofia], de Frederick Copleston. Foi nela que descobri a extensa história do pensamento judaico, muçulmano e cristão a respeito do argumento que Hackett defendia. Tomei a decisão de que, se algum dia eu pudesse fazer um trabalho de doutoramento em filosofia, escreveria minha dissertação de Ph.D. a respeito desse argumento.
Ao longo de uma série de eventos providenciais extraordinários, escrevi realmente a respeito do argumento cosmológico, tendo John Hick como orientador, na universidade de Birmingham, na Inglaterra. Pude assim explorar as raízes históricas do argumento de Hackett, como também aprofundar a análise feita por ele. Descobri também ligações bastante espantosas com a astronomia e a cosmologia contemporâneas.
Em razão de suas raízes históricas na teologia islâmica medieval, batizei o argumento de “argumento cosmológico kalam” (“kalam” é a palavra árabe empregada para a teologia medieval). Hoje, esse argumento, em grande parte esquecido desde os dias de Kant, voltou novamente à condição de central. O Cambridge Companion to Atheism [Manual de ateísmo de Cambridge] (2007) registra: “A contagem de artigos em periódicos de filosofia mostra que se publicaram mais artigos acerca da defesa de Craig ao argumento Kalan do que se tem publicado sobre outra formulação qualquer de um argumento a favor da existência de Deus por nenhum outro filósofo contemporâneo [...] teístas e ateus igualmente ‘não conseguem deixar em paz o argumento Kalam de Craig’” (p. 183).
O crédito da ressurreição desse argumento vai, em última análise, para Stu Hackett. Tenho a convicção de que, se o livro The Resurrection of Theism [A ressurreição do teísmo] tivesse sido publicado pela Cornell University Press e não pela Moody Press, então, seria bem possível que a revolução na teologia cristã começada em 1967, com a publicação do livro de Alvin Plantinga, God and Other Minds [Deus e outras mentes], teria começado dez anos antes. Sou grato a Deus pelo impacto de Stuart Hackett na minha vida.
- William Lane Craig