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#41 Um filho em dificuldades

July 12, 2012
Q

Nosso filho aceitou a Cristo quando tinha três anos de idade; à medida que crescia, crescia também com ele o compromisso com a sua confissão. Agora, aos 22 anos, e pela primeira vez, está realmente questionando no que acredita e por que acredita, etc. Uma de suas perguntas é: Por que, no Antigo Testamento, Deus parece ser um juiz tão rigoroso e, no Novo Testamento, um “pacifista”. Se é o mesmo Deus, por que parece tratar as pessoas de maneira tão diferente? Temos tentado responder a essa e outras perguntas, mas Jon não parece satisfeito. Devo acrescentar que entre os sete e oito anos de idade diferentes autoridades cristãs realmente o desapontaram. Entre elas estão três pastores, três autoridades numa escola cristã, uma autoridade na faculdade e um empregador cristão. Ele está com raiva da igreja. Somos amigos de Joan H—, e ela nos recomendou que lhe escrevêssemos. Obrigada por qualquer sugestão que o senhor possa dar. Atualmente, ele estuda numa universidade cristã e não tem ido mais à igreja. Apesar disso, lê a Bíblia, ora e contribui com o dízimo. Em nossa condição de pais, como devemos lidar com isso? Ele se formará em dezembro e, no outono de 2008, vai para o curso de pós-graduação. Tivemos a oportunidade de ouvi-lo em nossa igreja, e Joan respeita muito a sua opinião.

Barb

United States

Dr. Craig responde


A

Há aqui algumas questões, Barb, e suspeito que a de ordem pessoal seja a mais importante para você. Todos nós que somos pais, de algum modo, reconhecemos a angústia que podemos passar com nossos filhos, especialmente quando se trata do crescimento (ou da falta de crescimento) espiritual deles. Afinal, queremos que eles encontrem toda a alegria que o conhecimento de Cristo pode dar e, apesar disso, com muita frequência, parece que nossos filhos não agem exatamente em benefício do melhor interesse deles mesmos.

Quanto às perguntas de seu filho, devo confessar que jamais entendi as pessoas que acham que o Deus do Antigo Testamento e o Deus do Novo Testamento são diferentes. Não há como deixar de pensar que elas não leram realmente toda a Bíblia, mas apenas partes dela. Por isso, tiveram essa impressão errada. Ao lermos o livro de Ezequiel, por exemplo, não dá para não ficar aturdido com um Deus que se rebaixe tanto a ponto de rogar literalmente ao povo que se arrependa, para que ele não precise castigá-lo! Temos aqui o espetáculo quase indecoroso do Deus do universo rogando a pessoas pecadoras e rebeldes que abandonem a perversidade, para que ele não seja obrigado a julgá-las. Você acha que ele só iria aniquilar os desgraçados! Nunca deixei de me espantar com Deus, do modo como está revelado em Ezequiel.

Por outro lado, leia um terrível trecho como Apocalipse 19.11-16 acerca do juízo de Cristo sobre a humanidade. Não há nada no Antigo Testamento que se equipare a essa imagem terrível do grande lagar da ira de Deus, esmagando pecadores como se esmagam uvas maduras. O próprio Jesus advertia constantemente contra o inferno e instigava as pessoas a encontrar o caminho estreito que leva à salvação.

O melhor argumento de que o Deus do Antigo Testamento e o Deus do Novo Testamento são um único e exatamente o mesmo Deus é o fato de que Jesus de Nazaré era judeu consagrado ao Deus do Antigo Testamento e não considerava estar revelando outra pessoa, a não ser o Deus do Antigo Testamento, como seu Pai Celeste. Sugerir que o Deus revelado por Jesus era diferente do Deus sobre o qual lemos no Antigo Testamento é contradizer a crença e o testemunho do próprio Jesus. Ele não os considerava diferentes nem inconsistentes, então, por que nós deveríamos considerá-los assim? Da mesma maneira, nenhum dos apóstolos — inclusive Paulo, todos eles judeus — achava que estava adorando a um Deus diferente do Deus de seus pais. Se eles não pensavam assim, por que deveríamos pensar?

Talvez a imagem popular de Deus sendo mais intolerante no Antigo Testamento venha do fato de que temos no Antigo Testamento, ao menos por algum tempo, uma teocracia, na qual Deus era o cabeça do governo. As leis sociais e as leis de Deus eram as mesmas. Nessas circunstâncias, as ações pecaminosas do povo suportavam diretamente o peso da terrível santidade de Deus. Vemos assim o quanto Deus odeia o pecado e que castigos ele merece aos olhos divinos. Israel, porém, deixou de ser uma teocracia. No tempo do Novo Testamento, Israel estava sob o governo do Império Romano. Por isso, o que é moral e o que é legal se desintegram. O juízo é adiado até a ressurreição geral no fim da história. De modo semelhante, não vivemos hoje sob uma teocracia. É por isso que não é certo os cristãos tentarem tornar a lei de Deus a lei da terra. O que é imoral não precisa ser ilegal. Por essa razão, ao lutarmos pela proibição de certas ações, como o aborto sob encomenda, não podemos apenas citar a Bíblia, mas devemos desenvolver argumentos não sectários com um amplo fundamento moral. Seja como for, pode ser que a falta de entendimento das circunstâncias diferentes tenha fomentado a impressão errônea de que o Deus revelado no Novo Testamento ficou mais brando em sua visão do pecado.

Quanto ao que vocês podem fazer, como nos disse certa vez nosso filho, é tarde demais para que façam alguma coisa. Ele é adulto. Está agora longe da influência de vocês. Esta esteve sobre ele ao longo de todos os anos de seu crescimento, e vocês devem só orar para que o Espírito Santo inflame essas influências profundamente subjacentes para trazê-lo de volta a uma vida cristã vitoriosa. É óbvio que vocês podem ajudá-lo, amando-o e aceitando-o plenamente, não importa no que ele creia, mesmo que discordem e sejam feridos por ele. Não o irritem nem tentem reformá-lo, pois isso poderá somente afastá-lo de vocês.

Uma coisa que você pode fazer é se aprofundar sozinha no estudo das questões que ele levanta, para que, caso traga uma delas à baila, você consiga dar uma resposta inteligente e bem pensada. Já reservou tempo para fazer isso? Já procurou se instruir sobre as questões que ele traz, para que ele não descarte as suas crenças considerando-as como fé cega e ignorante? De modo especial, seu marido tem feito isso? Como pai, é ele quem precisa apresentar um modelo de homem cristão inteligente e digno de confiança — considerando-se especialmente os tantos que falharam com os filhos nesse ponto.

“Senhor, concede consolação a Barb pela dor do seu coração, enquanto seu filho atravessa a fase de repensar a sua fé. Concede-lhe paciência para deixar que o teu Espírito Santo faça a sua obra. Que ela e seu marido encontrem nessa provação a oportunidade para eles mesmos repensarem essas questões e assim estar mais bem preparados para responder sobre a esperança que há neles. E ministra ao filho deles, Senhor! Revigora nele tudo o que ele aprendeu e em que acreditou ao longo dos anos e restaura a sua confiança nessas verdades. Pai Celeste, dá a ele a convicção da sua própria ira e amargura por causa daqueles que o magoaram e lhe concede um espírito de perdão e compaixão. Ajuda-o a ver que a nossa confiança está somente em ti, que os homens podem falhar conosco e, por isso, não ousamos olhar nem colocar a nossa confiança neles, mas apenas em ti. Oramos pelo nosso irmão, em nome do nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.”

- William Lane Craig