#832 Será que Deus não podia, simplesmente, ter-nos perdoado?
June 11, 2023Dr. Craig,
Não é minha expectativa que esta mensagem chegue até o senhor, mas talvez alguém possa me ajudar com uma resposta.
Ando lutando com a fé cristã, e eu diria que as minhas crenças gravitam em torno da doutrina cristã, mas há princípios fundamentais da doutrina cristã ortodoxa nos quais eu não creio (ainda?).
Um exemplo importantíssimo é a pessoa e a divindade de Jesus de Nazaré. Não creio que Jesus era divino, nem que ele foi ressurreto dentre os mortos. Creio, sim, que ele foi pessoa de verdade e uma espécie de emissário plenipotenciário.
Foi-me apresentado um argumento de que, para que se reconciliasse a justiça perfeita de Deus com a salvação, seria preciso haver um Jesus que é divino e que pagou uma espécie de pena substitutiva que a humanidade, do contrário, seria responsável por pagar.
Há um conceito (que tenho certeza de que o senhor conhece) no direito e na justiça que atravessa diferentes tempos, lugares e culturas e que postula que a lei de um reino é feita e administrada em nome do soberano do reino. Sendo assim, está na autoridade do soberano conceder indultos e comutações de penas. Tal indulto ou comutação não remove a culpa do infrator (aceitar um indulto ou comutação é, na verdade, a admissão tácita de culpa), mas, ainda assim, faz-se a justiça. Não há nenhuma necessidade de um terceiro colocar-se no lugar do infrator para receber a pena devida a este último.
Como Deus é o soberano de toda criação, sendo-lhe o legislador supremo, segue-se daí que um livre perdão da parte de Deus se harmonizaria com uma resolução justa. Assim, se Deus escolhe dar à humanidade salvação e reconciliação, por que seria preciso haver um terceiro a receber a pena devida à humanidade e por que tal perdão seria menos do que uma resolução plenamente justa?
Escrevo-lhe esta pergunta com toda sinceridade. Tenho tantas questões e, infelizmente, não tenho ninguém para lhes responder ou para interagir comigo num exame intelectual das minhas crenças. A minha esperança é que, com a lógica, as minhas crenças falsas (em vista do cristianismo ortodoxo) sejam dissipadas e eu possa vir a adotar a fé de que o senhor desfruta e (se a sua crença estiver correta) evitar o que quer que seja o inferno (tormento de fogo, separação permanente de Deus, aniquilação da minha alma/consciência etc.). Obrigado a quem quer que leia esta pergunta e, especialmente, se o próprio senhor tiver a oportunidade de enviar-me uma resposta.
Tyler
Estados Unidos
Dr. Craig responde
A
Muito obrigado por sua pergunta excelente, Tyler! Que Deus o leve à fé plena e segura em Cristo!
Na realidade, abordei a sua pergunta nos meus dois livros: The Atonement [A expiação] (Cambridge: Cambridge University Press, 2018) e Atonement and the Death of Christ [Expiação e a morte de Cristo] (Waco, Tex.: Baylor University Press, 2020), e o incentivo a conferir o que disse com mais detalhes ali.
Você está bastante correto em observar a analogia do perdão divino com o indulto legal pela autoridade executiva de um estado, em relação a crimes cometidos. Eu só faria uma correção: o indulto, de fato, “remove a culpa do infrator”. O seu comentário bem pertinente de que “aceitar um indulto... é, na verdade, a admissão tácita de culpa” mostra por que estão errados os teólogos que dizem sermos absolvidos diante do padrão de justiça de Deus, por meio do sacrifício de Cristo. Não, o veredito de culpado não é revertido como numa absolvição; antes, ele é anulado por indulto legal. Somos condenados de maneira justa como culpados e, então, recebemos um indulto legal, que temos a liberdade de aceitar ou rejeitar.
A questão, então, é por que Deus não podia, simplesmente, ter-nos perdoado sem que Cristo levasse vicariamente a nossa pena em nosso lugar. Talvez lhe surpreenda que muitos teólogos cristãos, incluindo os Pais da Igreja, pensaram ser tal coisa possível. Não obstante, eles mantêm que Deus tinha boas razões contingentes para preferir satisfazer as demandas da justiça divina por meio da morte substitutiva de Cristo. O jurista holandês Hugo Grócio, como Tomás de Aquino antes dele, sustentava que, embora Deus pudesse ter-nos perdoado sem a substituição penal de Cristo, ainda assim, Ele escolheu punir a Cristo em nosso lugar para sublinhar, da maneira mais dramática que se pode imaginar, a hediondez e gravidade do nosso pecado e para exibir a profundidade do Seu amor sacrificial por nós. Creio que a observação de Tomás de Aquino e Hugo Grócio fazem bastante sentido. A influência da morte sacrificial de Cristo sobre a humanidade é, verdadeiramente, inestimável. Representada reiteradas vezes de modo figurado na literatura e de modo gráfico na arte, a morte de Cristo, ainda mais do que o seu ensinamento, mais do que o seu caráter, fez de Jesus de Nazaré uma pessoa arrebatadora e cativante para centenas de milhões, se não bilhões, de pessoas.
Mesmo assim, o perdão que Deus faz dos nossos pecados, sem a satisfação da justiça divina, parece, sim, envolver um meio-termo entre a justiça e o amor de Deus. Tal meio-termo não é um problema para as autoridades executivas humanas. Se a autoridade executiva, por misericórdia, decide perdoar um criminoso, as demandas da justiça retributiva não são satisfeitas. Mas, se Deus é tanto essencialmente justo quanto essencialmente amoroso, é dificílimo ver como tal meio-termo seria possível no Seu caso. Nem a Sua justiça nem o Seu amor podem ser comprometidos. Ao Cristo levar voluntária e vicariamente a pena pelo pecado que merecemos, as demandas da justiça de Deus são plenamente satisfeitas, bem como as demandas do Seu amor. (Obviamente, isto leva a todo tipo de questão filosófica sobre a justiça da pena vicária, mas trata-se de pergunta diferente da sua, sendo abordada nos livros mencionados acima.) Por meio da substituição penal de Cristo, as demandas da justiça divina são plenamente satisfeitas, permitindo a Deus oferecer-nos, sem comprometimento, um indulto pleno dos nossos pecados.
Conforme você indica, Tyler, tal morte substitutiva implica a divindade de Cristo. Isto porque nenhum ser humano pecaminoso e finito, já sob a condenação por seus próprios pecados, poderia jamais expiar os pecados de toda a humanidade. Nós demandamos um substituto divino e sem pecado, cuja morte seja de valor inestimável, para expiar-nos os pecados. Também defendi que a satisfação que Cristo fez da justiça divina também implica a sua ressurreição dentre os mortos (Pergunta 748). Assim, a expiação substitutiva de Cristo implica as duas doutrinas que lhe têm sido empecilhos até o momento, a saber: a divindade e a ressurreição de Cristo. Que você possa experimentar a maravilhosa redenção que temos nEle!
- William Lane Craig